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Ler ou não ler, Eis a questão

Segunda, 24 de Abril de 2017 299 visualizações Partilhar

Por resolução da UNESCO o dia 23 de Abril, data da morte de Cervantes e Shakespeare, é consagrado ao livro. Para os amantes da leitura o Dia Mundial do Livro é apenas mais um dia com livros, como são todos os outros dias de viajem pelas palavras. Ler é uma escolha, uma opção. Mas ler é, sobretudo, um prazer. Um prazer indiscritível.

Pode o leitor estar descansado que não vou fazer a apologia dos benefícios e da importância da leitura. Podia e, sendo professor, talvez devesse fazê-lo, mas não vou por aí. A lista está elaborada é longa e conhecida, e está, sem dúvida, completa. Cada um fará livremente a escolha que mais lhe aprouver. Opção que quem sabe ler pode fazer porque há quem não tenha o direito de escolher entre ler e não o fazer.

O que me preocupa é que há quem não pode optar, entre ler e não ler. Porque há, ainda, quem o não saiba fazer. Há os que juntam letras para soletrar palavras, e outros nem mesmo isso. E estes, quer uns quer outros, não podem optar, alguém já optou por eles e remeteu-os para um estado de privação.  Privação de um direito que devia ser universal, devia ser de todos. E não, não estou a exagerar, lido diariamente com quem só sabe soletrar palavras ou, nem mesmo isso, mas que ficam encantados quando ouvem ler textos poéticos. Textos de autores como Antero de Quental, Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner Andresen ou, de Vinícius de Moraes. É estranho, dirão, Pois é, eu também achei, mas foi o que constatei, e constato a cada dia em que essa experiência se repete. Se isto tem significado, tê-lo-á. Não me cabe a mim descodificar esse comportamento, deixo isso para quem o possa fazer com a devida sustentação científica.

Como cidadão e docente incomoda-me a opção de quem é detentor de uma competência, neste caso a leitura, e não a exerça, e se deixe invadir por leituras que não são as suas, invasão feita massivamente pela linguagem audiovisual. Comunicação que sendo, quase sempre, servida pronta a consumir é, também, por isso, mas não só, que tem muito mais consumidores que a comunicação escrita.

Como cidadão e docente incomoda-me de sobremaneira que outros cidadãos continuem impedidos de aceder à comunicação escrita, à leitura. Impedidos de fazer uma opção porque não são detentores dessa competência. Por responsabilidade própria, Talvez. Mas as estórias de vida são diversas e as responsabilidades divididas e, por consequência, não me cabe a mim, nem a ninguém, fazer generalizações e atribuir responsabilidades individuais quando existem um conjunto de variáveis que escapam ao controle do indivíduo. E assim é quando falamos de crianças e jovens, alguém optou por eles e os encaminhou para uma situação de injustiça que os priva de aceder ao saber e ao conhecimento.

A responsabilidade é, mais do que individual, coletiva. É aos pais, à escola, à comunidade ao poder político que cabe prover as condições para que nenhuma criança fique privada do direito à educação e ao sucesso.

Uma nota final, mas não à margem, sobre a realização, nos dias 20, 21 e 22 de Abril, em Ponta Delgada, do “Fórum do Livro”. Esta iniciativa da Publiçor e da sua chancela editorial “Letras Lavadas”, inserida nas comemorações do aniversário do grupo empresarial Nova Gráfica, assinalou de forma inédita e louvável o Dia Mundial do Livro. Esta iniciativa teve lugar na Biblioteca Pública e Arquivo Regional e juntou livreiros, editores, autores, críticos literários e muitos leitores. Foi uma excelente forma de comemorar o Dia Mundial do Livro e só posso endereçar os meus agradecimentos, enquanto leitor, aos organizadores do “Fórum do Livro”.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 23 de Abril de 2017

www.anibalpires.blogspot.com

 

 

 

Colunista:

Aníbal C. Pires

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