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A LIÇÃO QUE AINDA NÃO SOUBEMOS DAR

Sábado, 29 de Abril de 2017 228 visualizações Partilhar

Está-se, de novo a discutir a autonomia, os seus fundamentos, razões e utopias e o incentivo à reflexão pública acerca deste tema foi desafio já lançado.

Ora, tenho para mim, e vou deixar aqui esse contributo, que se insiste, de uma forma a todos os títulos errada, em modelos que nada têm a ver com as ilhas que somos, com os modos como fomos capazes de desenvolver, ao longo de cinco séculos a fio, certas formas de estar e resolver problemas e construir futuro.

Sabemos, todos, que Portugal é um país de forte tradição centralizadora, onde os municípios (desde “sempre”) e as regiões autónomas (agora) têm tido dificuldade em fazer valer os seus pontos de vista, necessariamente diferentes.

Foi assim com a monarquia antiga e absolutista, foi assim com a monarquia constitucional, onde os distritos então criados e os seus governadores eram elementos de ligação e, sobretudo, correias de transmissão do poder central, foi assim com a primeira república, temerosa de levantamentos locais anti-regime, foi assim com a segunda república, o Estado Novo, ainda mais centralizador, por vocação e por ideologia, parece continuar a ser assim, agora, apesar das frases ditas em sentido contrário.

Oito séculos passados nisto deixam marcas e, por muito que se diga ou que se tente fazer crer, é assim que a cabeça de todos ou quase todos está formada e formatada.

Ora vivemos em ilhas. Todas as eventuais lógicas de regime que se baseiem em modelos continentais e não de confederação de interesses e visões, em liberdade de associação e numa absoluta consciência permanente, solidária e culturalmente construída, em contínuo, segundo esse modelo, acabam por ser formas de transplantar modos de ser e viver continentais e, principalmente, de domínio.

Quando, em 1976, fiz parte, com orgulho, da primeira geração entusiasmada em construir uma região autónoma, a ideia era edificar uma terra onde as nossas diversas terras pudessem ganhar em liberdade o que perderiam em submissão, ganhar em autonomia o que perderiam em correias de comando e controlo, desaparecidas porque obsoletas.

Os Açores seriam - pensávamos nós - um conjunto de terras, não uma terra, com um conjunto de viveres, não um viver, apoiados, sobretudo, na possibilidade de cada ilha ser um “mundo” que se associava livremente aos outros “mundos”, construindo um espaço de associação e não de domínio.

Seria essa a lição que daríamos a um país que acabava de sair de uma ditadura centralizadora, fortemente hierárquica e profundamente dominadora.

Agora, tenho dúvidas!

Temos uma autonomia fortemente burocratizada, centralista e receosa, as ilhas continuam a sentir que ou dominam ou são dominadas. Parece que copiámos o pior que o Terreiro do Paço tinha e não temos sido capazes de criar um modo de ser que entenda estas ilhas como identidades autónomas, cada uma delas, e seja entendido por elas.

Os modelos de comunicação actuais ensinam o viver em arquipélago a cada mensagem entre telemóveis; os diversos planos de desenvolvimento apresentados, todos eles, - os que nos entendem, evidentemente-, valorizam o mosaico que somos; percebe-se, a cada instante, que a lógica é a da liberdade de relacionamento e a geometria variável.

Aproveitem-se essas janelas de inspiração que o futuro nos mostra e sejamos capazes de dar, agora, a lição de verdadeira autonomia, individual, de grupo e colectiva, que ainda não soubemos.

 

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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