Azores Digital

--> Hoje, dia 23 de Outubro de 2017

A BICICLETA

Sábado, 13 de Maio de 2017 204 visualizações Partilhar

Eis senão quando, em pleno século XXI, alguém descobre que outro alguém esgrafitou uma bicicleta junto a outras gravuras rupestre do Côa…

Em boa verdade, e tendo como exemplos as inúmeras aventuras dos Flinstones, talvez a representação da dita bicicleta, realizada, digamos, em escrita rupestre pós-moderna, não destoe assim tanto das representações rupestres paleolíticas, suas vizinhas, não fosse o facto – esse, sim, relevante – de a coisa não aparecer em fotografias obtidas, anteriormente, no mesmo local.

“Alguém” tinha levantado a mão – nefanda, sem dúvida – perante os esgrafitos ultra-antigos e tivera o atrevimento de querer ombrear com os autores, anónimos, dos outros desenhos já ali existentes, colocando-lhe, à ilharga, para não dizer encavalitada, uma bicicleta, ainda por cima nossa contemporânea, porque de rodas iguais…

De um ponto de vista libertário e em leitura de viés antropológico, pode-se achar que mais risco menos risco. Cronologicamente falando aquilo até é uma continuidade e não podemos esquecer que todos nós, alguma vez na vida, normalmente durante a juventude e em locais nem sempre autorizados ou recomendáveis, andámos a riscar coisas, desde coraçõezinhos apaixonados a símbolos fálicos.

Ora Bem!

Mas aquilo não se faz! Ponto!

É um acto de falta de civismo e de civilidade, de falta de educação, uma “frescura” sem nome, como diriam os brasileiros! Vão surgir lamentos, exigência de demissões, protestos públicos e políticos. Entretanto, a bicicleta, impávida e serena, bastante mal riscadinha, diga-se, e sem a leveza de traço das belezas milenares que por ali estão em volta, continuará lá. Aquilo foi feito e está feito!

No meio destes pensamentos e em busca de amparo, lembrei-me dos pobres e desaparecidos Budas de Bamiyan no Afeganistão! Eles que eram Património do Mundo, na mesma lista da zona central da Cidade de Angra do Heroísmo e da Paisagem do Pico.

Lembrei-me de como tinham sido literalmente explodidos, com direito a transmissão na televisão, perante o lamento público, à escala mundial é certo, mas apenas lamento sem consequência. Elementos culturais explodidos em nome de outra cultura, por entidades governamentais.

Lembrei-me, também, do esforço de guerra, feito durante o relativamente recente conflito dos Balcãs, para destruir Dubrovnik, também Património do Mundo, e exactamente porque queriam atingir o cerne da identidade croata. Novamente “a cultura”.

Estava eu nisto quando assisti, há pouco e durante uma manhã, a uma apresentação, interessantíssima, sobre os Passadiços do Paiva e o Geoparque de Arouca.

Durante o dia sucederam-se outras. Aquela, porém marcou a assistência e marcou-me.

A razão foi simples. Todo o projecto – que não será isento de erro, por certo – baseia-se na perspectiva de envolvimento social, económico, cultural, identitário, da comunidade residente e dos visitantes.

Tem consciência do valor cultural eminente dos bens naturais e culturais que o Geoparque guarda, mas parte da comunidade ao encontro desses valores e envolve as gentes, num continuum de actividades, acções e motivações.

Não basta dizer que vale, chamar visitantes e dizer que isso dá dinheiro. As coisas, para serem valorizadas, - e aqui somo, num único cabaz, respeito, gosto, prazer, interesse, carinho -, sobretudo as mais arcaicas, complicadas, eruditas e, por isso, distantes, têm de ser objecto de um esforço permanente junto da comunidade, garantindo o seu envolvimento. Não digo “no sentido de”, porque não basta o esforço, digo, com toda a veemência, “garantindo”. Só assim as bicicletas aparecerão menos, porque todo o resto significa mais.

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

Outros Artigos de Francisco Maduro - Dias

Mais Artigos