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A BELEZA DO SAGRADO (2)

Sábado, 27 de Maio de 2017 159 visualizações Partilhar

Pareceu-me interessante republicar, neste fim-de-semana entre o Senhor Santo Cristo e o primeiro Domingo do Bodo, este escrito, feito há mais de cinco anos, porque me parece cada vez mais actual. Sempre entendi que, sobretudo num estado laico – o que não quer dizer o mesmo que anti-religioso e, muito menos, anticristão -, cumpre à Igreja explicar porque é que uma escultura é uma imagem. Sempre me pareceu que não há maior museu – no sentido de casa das musas e, portanto, lugar de inspiração para o devir e o futuro -, que uma igreja católica, povoada de arte dedicada à Fé. Sempre me pareceu, finalmente, que a Igreja tinha na arte contemporânea um enorme potencial criativo disponível, fosse ela capaz. Porque essa arte está hoje desobrigada, por via dos meios mecânicos, de ter de representar coisas palpáveis, concretas e fáceis de inteligir, abrindo-se ao abstracto e à abstracção: “A beleza atrai, cativa, eleva o pensamento, introduz a paz! A beleza é, acredito, apolínea! As discussões acerca do belo levaram os clássicos antigos a buscar na matemática e na geometria proporções perfeitas, balanço de equilíbrios, excelência de dimensões. Quando se introduz a questão do sagrado a situação torna-se mais complexa, porque ele é, essencialmente, do domínio da metafísica, e as representações têm de ser físicas, para poderem ser sentidas e percebidas! Se o sagrado é plenitude e absoluto então, porventura, nem seria difícil juntar a perfeição da beleza com a perfeição desse absoluto. Entram, porém, aí, os diversos tempos da História, os momentos e os gostos das gentes e os nossos sentidos, trabalhados pelo evoluir terreno da humanidade. Qualquer das artes aspirou, pelos séculos adiante, a construir algo de beleza infinita e total. Todas elas andaram, também, em torno do sagrado. Como é que um vislumbre da plenitude e do belo pode tornar-se presente, diante de nós e dos nossos olhos? Quantos aspectos diferentes podem tomar? Que ideias estão por detrás de quem entendia as esculturas góticas das catedrais como necessariamente esguias e fugindo ao cânone áureo? Olhando a Capela Sistina e o fortíssimo momento da Criação Divina, quanto de clássico, de humano, está tremendamente presente naquele Deus, vazado num corpo de Zeus, decidindo, num gesto imperioso, a separação da luz e das sombras e o nascimento dos astros? Quanto de profundamente físico – e, no entanto, tocado de elevação – existe naquela linda mulher que está no altar da igreja de Nossa Senhora da Guia, em Angra, com o filho num braço e indicando, com o outro, o caminho a seguir, decidida? Se, para cada tempo, há uma certa arte e um certo núcleo de formas de interpretação do belo/sagrado, existe hoje, à espera, um enorme espaço de possibilidades, potenciado pelos caminhos da abstração artística. Que cor(es) tem Deus? Que (não) forma(s) tem uma Sua escultura contemporânea? De que modos o Sagrado pode tornar-se presente hoje, em beleza e em força?”

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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