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O “FRANGA” DE BARCELOS

Sábado, 05 de Agosto de 2017 240 visualizações Partilhar

Alguns estarão lembrados de um programa fantástico da RTP, com mais de quarenta anos, chamado Zip Zip.

A estrela cómica do programa era Raul Solnado, que criou imensas personagens nas suas rábulas, entre as quais a de um turista alemão, chamado Fritz, porventura uma das melhor conseguidas pelo grande actor.

Importa dizer, aqui, que boa parte do sucesso dos diversos momentos cómicos derivava da situação política da época, anterior ao 25 de Abril, pois muitas das afirmações tinham um duplo sentido, a fim de passarem pela censura, e importava sintonizar o público, desde início, nessa outra linha de pensamento, escondida nas palavras ditas em palco, criando, a partir daí, uma sucessão de momentos de riso e gargalhadas.

A rábula de Fritz não fugiu a essa regra, mas o que me interessa ressaltar aqui, hoje, é a sequência de comentários sobre o turismo e o desenvolvimento que se sentia,na época, por via dele, baseado, por exemplo, numa campanha que teve por título “Abril em Portugal”.

Recordo-me, especialmente, do momento em que Fritz, falando com sotaque carregado de sons germânicos, diz que recebeu uma oferta do Dia do Turista, das mãos de uma menina que estava a distribuir recordações.

Dizia o Fritz que ela lhe tinha dada um galo de Barcelos, melhor dizendo um “franga de Barrcelos”, já que era pequenino…

Lembrei-me disso a propósito da quantidade de coisas que por aí anda, agora, sob a designação de “merchandising”, especialmente preparada para turistas e proclamada, por quem vende, como uma recordação da terra visitada.

Lembrei-me, porque esses objectos não são inocentes, nem na sua materialidade nem no espírito que esteve na base da sua existência. Criados, à partida, para encantar os visitantes, em boa verdade eles acabam por criar uma narrativa de nós próprios que nem sempre é a mais verdadeira, ou então são um conjunto de pequenas coisas inúteis que associam a essa inutilidade a falsa imagem do local.

Lembro-me de uma, de tal modo evidente na sua produção em série que se tornou objecto de colecção por isso mesmo. Devem estar recordados. Eram uns quadros em madeira, com a miniatura do interior de uma casa, com mesa prateleira e copos. Um chave de corda accionava um mecanismo que tocava “uma casa portuguesa” e as garrafas da prateleira tinham um rótulo.

Eram iguais em tudo. A única diferença entre eles era esse rótulo que, aqui na Terceira, cheguei a ver indicando Verdelho dos Biscoitos, mas que também existia com vinho do Porto, vinho Madeira, moscatel de Setúbal, vinho Dão, etc. Imensa gente tinha uma peça dessas, em casa.

Ora, quer o galo de Barcelos quer esses quadrinhos, foram criados para turista comprar, mas acabaram por ser muito comprados, também, por gente da terra, assumidos como sendo verdadeiros retratos da nossa personalidade colectiva.

Por isso trago aqui o assunto. Pelas implicações culturais e identitárias que tem.

Porque esses produtos, que agora andam por aí e sem descurar a sua relevância comercial, deviam ser estudados, criados e vendidos como produtos de interesse cultural.

Importa nunca esquecer que se trata de objectos criados para recordar, a quem nos visita, o que somos, e a nós, que por cá andamos, que identidade temos.

Importa que esses produtos sejam, de facto, embaixadores da nossa cultura e modo de ser, viajem eles para outra ilha ou para os antípodas do Atlântico.

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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