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RUÍNAS E ESTADOS DE ALMA

Sábado, 19 de Agosto de 2017 314 visualizações Partilhar

Por certo não parece um tema para os descuidados dias de Verão, mas não deixa de ser interessante ver-se até que ponto uma simples pergunta de Verão, feita por um turista, acaba por servir de âncora para um par de ideias, no mínimo diferentes do costume.

A questão foi levantada a propósito do sismo de 1 de Janeiro de 1980: da enorme quantidade de ruínas gerada; dos que ficaram sem casa; dos modos que foram encontrados para resolver o problema; dos muitos técnicos e empresas, algumas bem graúdas do panorama nacional da época, como a Soares da Costa, a Teixeira Duarte ou a nossa bem conhecida Edimar.

A conversa continuou acerca do número de mortos, espantosamente pequeno, tendo em conta a intensidade e duração do abalo, a origem no mar e as ilhas atingidas, o número de edifícios afectado, o modo como as forças armadas portuguesa e americana tinham acudido, o destacamento do regimento de engenharia que veio para auxiliar na reconstrução, as visitas de diversas entidades e os diversos fundos que se constituíram para ajudar na recuperação do parque habitacional.

Depois, passou-se para o que foi viver nesses dias, sempre à espera de cortes de luz ou de água, apoiados em telefones que nem sempre funcionavam, na necessidade quase permanente de redundâncias e modos de substituição, pois “antes prevenir que remediar”; o modo de vestir, rústico e adaptado a um viver por entre estaleiros de obras, poeira, cimento, brita, pó de pedra, varas de ferro, máquinas e máquinas, num vai e vem constante, umas enormes, outras quase de bolso, como os bobcat; os sentidos das ruas sempre em mutação, dependendo do momento das obras em curso em cada artéria, a certeza de que cada dia seria diferente e que o que era válido hoje podia já não o ser amanhã.

Aqui e ali, aparecia um comentário acerca da rapidez da reconstrução, dos muitos técnicos envolvidos, acerca de ideias um bocado mirabolantes, como uma que propunha a consolidação das ruínas e a construção de uma cidade por dentro dessas entranhas ou outra que defendia demolir tudo e construir uma cidade com artérias largas, de várias pistas… enfim…

Ao longo de toda esta conversa, uma coisa era recorrente: o comentário elogioso acerca das ruínas, rapidamente substituídas por uma reconstrução galopante e quase frenética.

Em seis anos, o essencial fora posto de pé, novamente, e o que agora, passados trinta e tal anos, existia ainda em ruínas era uma muitíssimo pálida imagem de tudo o que ficara fora do sítio, nesse dia fatídico e de má memória.

A conversa centrou-se, a partir daí, nisso da ruína e do modo como ela não era aceite e se notava uma vontade, quase permanente, de a fazer desaparecer.

Contraditória atitude, essa, perante algumas propostas de técnicos que defendiam a ruína consolidada como forma de memória, na linha das ruínas românticas oitocentistas de França e Reino Unido, por exemplo, ou das memórias arquitectónicas monumentais de Itália e Grécia.

Foi aí que pensei até que ponto, mesmo sabendo de toda essa tradição romântica, o meu eu mais interior gritava contra essa ideia de deixar ficar um pedaço de edifício esborralhado sem lhe tocar e, ainda por cima, de o considerar memória, consolidando-o…

Enquanto ouvia o comentário do meu interlocutor, ia passando, mentalmente, diante dos olhos, as muitas e muitas atitudes de reconstrução, de reposição, de querer “limpar a casa” daquela confusão e desordem, que guardo de muita gente, e desses dias, e tentei a minha resposta, que deixo aqui,  mais como opinião em busca de saber se outros pensam o mesmo, do que como afirmação acabada.

Acho que a ruína é tudo menos bela, para nós, aqui nas Ilhas. Vivendo num lugar onde sabemos que haverá, sempre, num futuro qualquer, algum abalo de terra mais violento, a ruína é, sobretudo, um sinal de derrota e de incapacidade de repor a vida nos eixos. Do mesmo modo que temos confiança em nós para recolocar na prateleira uma jarra caída, ou para varrer e pôr no lixo alguns pedaços de coisa quebrada que já não serve; deixar uma ruína, sem a limpar ou reconstruir, é sinal de incapacidade e derrota.

Por isso gostamos de Angra. Por isso gostamos de revisitar cada lugar, destes Açores, que, atingido por um sismo, foi abaixo, pela violência, mas retornou acima, reconstruído, pela coragem e perseverança de quem tem forças para seguir adiante.

Tenho para mim que, por estas bandas, uma ruína pode ser apreciada, intelectualmente, na sua beleza romântica, mas, cá dentro, onde as memórias habitam, é um sinal de derrota e falta de ânimo que muito dificilmente podemos aceitar ter, todos os dias, diante dos olhos.

É na nossa capacidade de reconstruir e refazer a vida, todos os dias, que baseamos o gosto que temos em viver aqui.

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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