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Engodo

Segunda, 23 de Outubro de 2017 115 visualizações Partilhar

Em desespero, a direita e a extrema direita aproveitando-se de alguns cidadãos bem-intencionados, tentaram. Tentaram, mas sem sucesso mobilizar os portugueses para manifestações silenciosas, apolíticas e apartidárias. Os portugueses não foram na cantiga, desde logo, porque as manifestações nunca são silenciosas, mesmo que não se ouça mais nada a não ser o ensurdecedor silêncio do protesto, mas também porque não existem manifestações apolíticas. As manifestações até podem ser apartidárias, não faltam exemplos no nosso país de grandes manifestações apartidárias, mas as manifestações nunca são despojadas de um objetivo político. E os portugueses, apesar de tudo, compreenderam qual era o intuito dessa mobilização silenciosa, mesmo os que não viveram o 28 de Setembro de 1974 e os apelos da “maioria silenciosa”.

Às esperadas grandes manifestações do passado sábado juntaram-se algumas pessoas bem-intencionadas e uns tantos acólitos e partidários da direita e da extrema direita, em algumas cidades nem os promotores chegaram a comparecer, como foi o caso de Ponta Delgada onde se juntaram apenas dois ingénuos manifestantes do grupo dos bem-intencionados. A manifestação de Lisboa só foi notícia pela fraca adesão e por algumas altercações e agressões quando um grupo de manifestantes mostrou uma faixa atribuindo responsabilidades, pela catástrofe nacional que os incêndios florestais configuram, ao anterior governo.

Da fraca adesão às manifestações convocadas pelas redes sociais não se pode, contudo, concluir que o povo português não é solidário com as mais de 100 vítimas dos incêndios florestais de 2017 e com as populações afetadas, ou que não quer e exige alterações à política florestal, ao ordenamento do território, aos meios e à coordenação para o combate aos incêndios florestais, às alterações à moldura penal em vigor para os incendiários, bem assim como uma investigação policial conclusiva sobre a origem dos incêndios florestais.

O povo português quer tudo isso, mas o povo português também sabe que o grande objetivo das manifestações não era o anunciado pelos promotores e, apesar do isco ter sido muito bem servido pelos agentes do costume, desta vez, o povo português não se deixou engodar. A memória é curta, mas não tão curta assim.

Na manifestação silenciosa de Lisboa ouviram-se algumas “palavras de ordem”, como esta, “Comunas para a fogueira, Comunas para a fogueira”. Não foi um coro da manifestação, foram gritos isolados, gritos que traduzem a verdadeira natureza e objeto da manifestação. O que os mandantes pretendiam, não tenhamos ilusões, era uma grande manifestação popular de protesto ao governo minoritário do PS apoiado, por acordos bilaterais, pela esquerda parlamentar. E como neste processo político, que até tem dado alguns resultados positivos para quem trabalha, o PCP é assim como o garante de que a reposição de direitos e rendimentos é para continuar, então nada como ressuscitar o anticomunismo primário. A coisa não lhes saiu lá muito bem, mas eles não descansam e não faltarão outras táticas e estratégias para alimentar a cruzada anticomunista.

Mas nós cá estaremos para alimentar a fogueira da luta em defesa dos trabalhadores e do povo português, como estamos desde 1921 a arder de fervor revolucionário.

 

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 22 de Outubro de 2017

www.anibalpires.blogspot.com

 

 

Colunista:

Aníbal C. Pires

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