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Ser ilhéu

Segunda, 06 de Novembro de 2017 120 visualizações Partilhar

Ser ilhéu mais do que uma maneira de ser, é uma condição. É uma vivência intemporal, regressada ininterruptamente à vida de qualquer um, que tenha a sorte de nascer no meio da lava. Intemporal porque se desloca pelo sangue, de geração em geração, seduzindo-nos.

Ser ilhéu é conjugar a ruralidade que nos molda à mundividência que ganhamos por sair. A ilha só nos isola se quisermos, porque ser ilhéu é persistir na descoberta da continuação da terra, pelo espírito, e talvez na busca incessante do sonho.

Ser ilhéu é pedaço de massa sovada doce, servida, depois de amassada com amor pela matriarca da família.

Ser ilhéu é lapa presa à rocha, como se é, igualmente, preso à terra do nosso berço.

Ser ilhéu é ser toiro bravo, que se deslumbra com os campos e se excita nas ruas.

Ser ilhéu é cantiga de quatro versos, cuja melodia exorta os nossos sonhos e desejos, e cada verso é uma resposta à beleza da nossa condição.

Ser ilhéu é sopa do Espírito Santo, ungida pela fé que ganhamos a mais, por estarmos, como ilhéus, isolados pelo mar.

Ser ilhéu é pão alvo, por ser revestido com uma crosta de aço, impenetrável ao desassossego, mas cheio de paz por dentro.

Ser ilhéu é ser vulcão adormecido, que se move por dentro da terra, denotando uma alegria calma, sem exaltações desmedidas.

Ser ilhéu é ser sismo quieto. Tremelicamos nervosa e tristemente com uma partida, mas rimos aos saltos com um regresso definitivo.

Ser ilhéu é mar bravo, nas horas de irritação, onde a impaciência não conhece limites.

Ser ilhéu é ser marinheiro sem bússola, porque vai, descobre, cai, redescobre, mas não se perde.

Ser ilhéu é ser a ilha, porque a leva dentro de si, não a perde nem a esquece, e é ela que o faz ser quem é.

 

e-mail: areiase96@gmail.com

 

Colunista:

Emanuel Areias

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