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--> Hoje, dia 18 de Novembro de 2017

Falar à nossa moda

Sexta, 10 de Novembro de 2017 145 visualizações Partilhar

E que orgulho ser da ilha, cujo dialeto é ele próprio uma demonstração da nossa vivacidade e da nossa maneira de ser castiça. Não é motivo de vergonha falar como o terceirense e cortar letras das palavras ou acrescentar um tom musical à pronúncia final dos vocábulos, vergonha é mudar o nosso falar, “continentalizando” a pronúncia.

Que nunca faltem expressões como “é home, tal disparate” ou “óme, pomordês” ou “Ó vocês, acaçapem-se!” ou “Uma coisa como é dado”. E mais umas tantas. O vermelho que sublinha as expressões ditas terceirenses, no computador, intencionando uma suposta correção por existir, é ele próprio errado. E não, disparate não é uma coisa má.

Aquilo é “aquilhe”; gostamos muito da letra “e” e acabamos muitas palavras com “e” – cabelo fica “cabele”; pequeno fica “pequene”; encanado fica “encanade”; cuidado fica “cuidade”; etc… Mas continua, e no fim, gostamos de imprimir um certo prolongamento da fala, e por exemplo, “sequer” fica, ao ser pronunciado, “sequiéee”.  Os verbos terminados em –er têm o infortúnio do “r” ser expulso da palavra, logo na Terceira diz-se “comê e bubê”, ao invés de “comer e beber”. Mas é feio? É errado? Qual quê… é fixe!

Enquanto outros pensam nas palavras e pronunciam-nas devidamente, não vivendo cada momento centrados na vivência, o terceirense, vive e fala ao mesmo tempo, o que lhe provoca um certo cansaço para acabar as palavras. Para além de darem aquela marca característica, tão ímpar e tão querida.

As pessoas mais antigas assumem, no seu falar, uma forma de expressão ainda mais peculiar. Em livros antigos, cujas pessoas eram entrevistadas, vemos por exemplo, o senhor Ti Mateus “Fumega” a dizer “ciárro” ao invés de “cigarro” ou “buns” no lugar de “bons” ou “amaricanos” no lugar de americanos. Ou a senhora Tia Maria Ferruméca, mestra de funções, que diz “comaié” ao invés de “como é” ou “alambrança” no lugar de “lembrança”.

A força destas expressões e o nosso falar tão próprio passam de geração em geração, e são motivo de orgulho. Devem permanecer em nós. Enquanto povo, é isto que nos caracteriza. Também é. Mas não só. Pelo falar, reconhece-se um terceirense. E não, o nosso falar, não é comparável ao sotaque tido como “o açoriano”, que não passa de uma generalização medonha do falar micaelense.

 

 

 

 

Colunista:

Emanuel Areias

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