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QUESTÕES DE VOCAÇÃO

Sábado, 25 de Novembro de 2017 108 visualizações Partilhar

O sururu que se levantou, a propósito do jantar no Panteão Nacional, ligado a alguns comentários a que tive acesso, mais recentemente, no que se convencionou chamar “redes sociais” levou-me a alinhavar as linhas abaixo.

Trago-as aqui porque se falou de património, o tal que aparece quando menos se espera, para servir de argumento e de contra-argumento…

Em boa verdade, raras vezes o chamado património – refiro-me ao construído – é visto como um recurso. Os olhos da comunidade tendem a vê-lo como um custo, que serve, sobretudo, para embelezar momentos solenes ou para servir de cenário.

Ora um Panteão, se formos à raiz da palavra, é o lugar onde habitavam os deuses, aqueles que orientavam e inspiravam os homens.

Hoje, já não é Júpiter, Juno, ou Vénus que ali moram, mas é – embora em cenotáfio- Albuquerque, Camões, Eusébio…

Santa Engrácia, em Lisboa, foi escolhida para ser lugar onde os “pais da Pátria” são relembrados, para servir de algo mais que cemitério onde se choram os mortos, para ser lugar onde “residem”, “aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte”, no dizer de Camões.

Por isso me espantou o sururu! Pois estava a ver, e de novo, a mesma atitude de respeitoso afastamento que a comunidade habitualmente procura, quando se trata do tal “património”, como se nada mais fosse possível que visitar, em silêncio, esses lugares por onde a vida já não passa, sejam eles igrejas, castelos, mosteiros, casas...

No entanto, parece-me claro que o uso de um edifício, considerado “patrimonial” a qualquer título, deve ter associado um trabalho, prévio e constante, de definição da ou das suas vocações, no sentido de manter claras as razões da sua identidade “patrimonial”, perante quem passa.

É que vocação quer dizer chamamento, e isso supõe que, quando se classifica, é porque se quer valorizar de algum modo, porque se quer que aquilo faça parte do nosso futuro, porque é importante. E importa tornar claro - a todos - a razão dessa importância e o modo ou modos como se pretende integrar o futuro desse imóvel ou bem no nosso futuro.

E foi aí que a questão falhou e falha, quase sempre. Porque as classificações costumam ser usadas para bloquear e não para criar; para retirar da circulação algo, em vez de para incluir; para impedir o uso, em vez de para o exigir.

Aquele jantar, porque resultado de um êxito da diplomacia portuguesa, porque finalizando um momento positivo, não me incomodou especialmente! Está-se não num cemitério qualquer, aquilo é um Panteão, o “tal” lugar dos libertados do esquecimento por obras valerosas.

Muito mais me incomodou saber que, em tempos, um livro da saga de Harry Potter foi lá lançado. Isso, sim, nada tem a ver com o espaço, que apenas serviu, então, de ambiente decorativo, pago a peso de ouro.

Vale a pena deixar, aqui a pergunta “de sempre”.

Para que serve um monumento? Porque razão querer tê-lo, diante dos olhos, amanhã?

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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