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Do número se faz um juízo

Domingo, 26 de Novembro de 2017 109 visualizações Partilhar

É sabido que o olhar das pessoas foca-se muito na imagem que vendemos exteriormente. Ou então os números do dia, mês e ano que o nosso cartão de cidadão trás consigo, são a linha orientadora para um juízo de valor. Não há muito a fazer. É a sociedade que temos, ou talvez seja mesmo o mundo que temos.

Ajuizar a pessoa pelo seu pensamento, comportamento e ação é legítimo e aceitável. Ajuizar a pessoa pela sua idade, pela sua imaturidade em razão da idade e o seu grau de saber em razão da idade, é, como já disse imensas vezes, não só irritante como absurdo.

Edmund Burke, pai do dito conservadorismo moderno, ironiza e diz que “a idade é algo que não tem importância, a não ser que sejas um queijo”, ou então, como me disseram, e fazendo jus ao que é nacional, “a não ser que sejas vinho do Porto.”

Falamos num tema do passado, cuja vida não proporcionou a um jovem, a oportunidade de viver naquele tempo. Começa imediatamente aquele comentário bizarro, de que “esses é que eram tempos duros” ou “deviam ter vivido era naquele tempo”, como esses “tempos” e “tempo” fossem agentes formadores de melhores pessoas do que hoje. Esse tempo do passado só poder ser falado por quem o viveu, sob prejuízo do jovem não saber falar do que não viveu. Como se viver na altura fosse legítima prova de um conhecimento absoluto. Mas às vezes nem é apenas o ter vivido a situação falada, mas ver nos anos a mais, o critério exato para se ter direito a opinar.

Também há o momento do ter de começar pelo início. Porque há sempre um início para tudo – na universidade, no trabalho – e mesmo assim, quem se inicia em algo, por norma jovem, não deve ser visto apenas como consumidor do que já há. É ele mesmo o criador do que não há. Ou pode ser. O caloiro, o estagiário, o aprendiz, o novato têm de ser o início do que haverá no futuro. E não podem ser eternos caloiros, estagiários, aprendizes e novatos.

Do número se faz um juízo. Mas a sabedoria ou a competência não se medem pela linha da vida. São intrínsecas às pessoas. Haverá o jovem estúpido e parvo, como o velho estagnado. Como haverá o jovem competente, que é ensinado e ensina, aprendendo eternamente. Como qualquer um, aliás.

 

Colunista:

Emanuel Areias

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