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Segunda, 27 de Novembro de 2017 121 visualizações Partilhar

Olha para mim. Quando falo contigo olha para mim, não és capaz porquê, Tens medo de quê. O professor exigia ao rapazola que o olhasse nos olhos e, chegou mesmo a pegar-lhe no queixo para que ele levantasse a cabeça e encara-se o olhar de repreensão. O aluno, perante a insistência, levantou a cabeça, mas desviou o olhar. E o professor insistia, Olha para mim.

Alguma coisa não estava bem. Em casa sempre lhe tinham dito que quando falasse com os mais velhos devia manter a cabeça baixa e, nem se atrevesse a encarar-lhes o olhar. Se o fizesse era repreendido. Olhar alguém mais velho nos olhos era uma afronta, pelo menos assim o tinha entendido. Porquê aquela insistência do professor, de quem até gostava e por quem nutria respeito. Era assim que se comportava com o pai, quando este o repreendia e sempre que falava com o padre, com os tios e avós, mas também com a professora da escola primária. Baixava a cabeça e fixava o olhar no chão.

Perante a insistência do professor lá levantou a cabeça evitando-lhe, como podia, o olhar e ouviu. Ouviu sem entender como se devia comportar. Olhar, ou não, nos olhos de quem fala connosco, seja quem for e de que idade for. Como comportar-se daí para a frente e, sobretudo, a quem devia seguir os ensinamentos, Ao professor ou à família. Ele que se tinha por um rapaz bem-educado, eram os vizinhos e amigos da família que o diziam. E agora como fazer.

Este é apenas um pequeno, mas significativo, exemplo. O professor não tinha obrigação de conhecer os motivos que estavam por detrás daquela atitude do jovem, mas era-lhe exigível que não formulasse juízos sem procurar perceber o que estava na origem de tal comportamento. Não é fácil, sei-o por experiência própria e contínuo, ao fim de mais de 40 anos de profissão, a cometer erros destes. Erros que parecem de somenos importância, mas que podem fazer a diferença entre o bom e o mau relacionamento dos professores com os seus alunos, com tudo o que isso implica, ou possa implicar no processo de ensino aprendizagem e no percurso formativo das crianças e jovens.

Quantas e quantas vezes, agimos sem ter em consideração que nem todos, e ainda bem, têm a mesma matriz cultural, quantas e quantas vezes somos nós a origem de alguns problemas de integração dos alunos na Escola, exigindo a todos que se comportem como iguais, quando todos são diferentes.

Não, não estou a autoflagelar-me, nem a procurar atribuir responsabilidades aos educadores e professores. Dos docentes o sistema educativo espera isso mesmo, Uniformidade. Os exames nacionais, a avaliação externa, a avaliação de desempenho dos docentes tudo está arquitetado para a padronização.

Os educadores e professores são instrumentos de um sistema educativo que formata e reproduz um modelo. E chegado aqui não posso deixar de referir um dos temas dos Pink Floyd, Another Brick in the Wall e o verso deste tema que todos conhecem e, certamente já cantarolaram, “Hey! Teachers! Leave them kids alone”. Este tema da banda britânica que marcou gerações, não é um grito de revolta contra os professores, é sim uma profunda crítica ao sistema de ensino, no caso ao sistema de ensino britânico, mas que se pode e, foi assumida com uma crítica global à forma como a escola reproduz, ou procura fazê-lo, módulos que se repetem num padrão de comportamento social. Assim se mede o sucesso escolar, quanto mais normalizado for o produto, melhor. Será mesmo assim ou, nem por isso.

A álbum The Wall data de 1979, o filme é de 1982, mas não perderam atualidade pois, o sistema educativo de hoje continua a produzir cidadãos formatados (tijolos) conforme as conveniências e necessidades dos construtores do muro.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 26 de Novembro de 2017

www.anibalpires.blogspot.com

 

Colunista:

Aníbal C. Pires

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