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ARTESANATO NO QUOTIDIANO

Sexta, 08 de Dezembro de 2017 71 visualizações Partilhar

Cada vez que olho para uma vitrina, onde se exponha aquilo que vulgarmente se designa por artesanato, mais confuso fico.

Não é a questão da sua beleza que está em causa. É, sobretudo, a da sua utilidade e razão de existir.

Reconheço que, quando estas ideias me assaltaram a mente, tinha estado pouco antes a reler um trabalho de Luis Ribeiro onde tratava das indústrias terceirenses de carácter artístico e sua valorização, publicado já postumamente, em 1955, pouco depois da morte desse grande etnógrafo e pensador da Açorianidade.

Segundo alguns dicionários, artesanato é, por exemplo, “o trabalho manual de uma pessoa, utilizando matéria-prima natural; produção de um artesão (de artesão + acto)”, ou “resultado do trabalho de um artesão”, sendo que artesão é “pessoa que fabrica manualmente determinadas peças ou produtos (de olaria, carpintaria, tecelagem, renda, etc.).” ou, ainda, “pessoa que faz os seus próprios produtos e os comercializa directamente”.

Sendo controversa a questão da matéria prima natural como necessária à definição, o que fica claro é que se trata de um trabalho com grande componente de esforço pessoal e usando as próprias mãos ou maquinaria e equipamentos simples.

Por outro lado, embora se pudesse e devesse discutir quanto do chamado artesanato, que por aí se vende, é feito por cá e quanto é feito “lá fora”, a questão em título tem a ver com um aspecto que nem sempre é valorizado como deveria, tanto quanto vejo as coisas: a do seu enquadramento e utilidade.

Vistas bem as coisas, na origem, o artesanato nasceu, em muitos casos, do gosto de – diria até, da necessidade vinda da alma -, acrescentar beleza e alegria ao olhar, a uma colher de pau, a uma tijela de sopa, a um suporte de flores, a uma manta, cobertor ou toalha, a uma saia, camisa ou avental, a uma cadeira, às costas de uma cama, etc.

É certo que sempre terão existido elementos de valor essencialmente decorativo e de funcionalidade reduzida, mas a verdade é que isso não é o mais usual nem basta.

As vulgaríssimas canecas cilíndricas, de pequeno almoço, que por aí pululam cheias de publicidade, aproveitam, precisamente, essa necessidade de alimentar o olhar, ao mesmo tempo que se bebe chá, leite ou café. Ou seja, misturam o uso funcional com cores, desenhos e formas que, em boa verdade, nem são necessários à bebida, mas ficam muito melhor no resultado global final.

Não se trata, aqui, de reclamar que apenas seja entendido como artesanato aquele que recupera artes “nossas” quase desaparecidas, mas de deixar um alerta sobre a enorme vantagem de se casar as formas de decoração e materiais tradicionais com necessidades funcionais actuais.

É necessário penetrar o quotidiano –o nosso e o de quem nos visita -, cada vez mais, com coisas que façam sentido á vida do dia a dia e misturem, isso sim, artes nossas, quase desaparecidas com necessidades de hoje.

Em vez de serem “emprateleiradas” estarão diante dos olhos de quem as use, todos os dias, e isso só pode ser bom.

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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