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Os três professores

Domingo, 10 de Dezembro de 2017 383 visualizações Partilhar

Tive um professor que na primeira aula meteu a tocar a música dos Scorpions, “Wind of Change”. Na altura parecia-me algo estranho, pelo hábito existente de aprender com os olhos vidrados na matéria. Depois é que me apercebi que aquela música era a fuga para o caminho certo do conhecimento. Ou pelo menos representava uma alternativa ao triste costume da exposição monótona do docente, e à consequente pergunta esperta que perseguia a desatenção dos súbditos calados. À exposição seguia-se então as perguntas, e assim se transmitia conhecimento. Com este professor começou por não ser assim. Mas a culpa não é dos professores, mas do autêntico caderno de encargos a que estão amarrados, sob prejuízo de levarem com a guilhotina em cima, caso não o cumprem.

Estava no sétimo ano. Não me lembro bem da forma exata como o professor explicava, mas sei que foi com ele que aprendi que a aula não é as quatro paredes do espaço onde se desenrola nem é a figura do professor com um livro nas mãos. O ensino severo não mostra as qualidades do docente, que acaba por ter de se nivelar num certo nível com todos os colegas. A inovação é sempre um risco, pois no fim de tudo, podem ficar cativos de um amontoar de papéis, de modo a justificar a política de ensino escolhida. Mais vale a prisão perpétua dentro de um ensino comum, banal e tradicional. No oitavo e nono ano, com o professor substituto desse último, entendi que um bom professor é o que toma a sala como a sua casa, e educa para além do ensino – faz dos filhos dos outros um bocadinho seus, na transmissão de valores e conhecimentos, dignos de serem questionados. Na passagem para o secundário, a professora de História que substituiu estes últimos dois (do 7º, 8º e 9º), acompanhou a evolução que eu esperava. Apesar de me sentir perdido no início, logo percebi que o conhecimento discutido e questionado seria constante nas aulas. A falta dos “apontamentos” ou da “sebenta” matava por dentro, de agonias, os meus colegas. Gostei, porque podia discutir a matéria com a professora, percebendo-a, com base na compreensão do presente e na perceção das consequências imediatas para o futuro. Aí entendi que a História era tudo. E a vida só seria entendida com base no que ela nos dá. Porque a História é uma discussão do presente, com conhecimentos claros do passado. E não é a data ou facto que interessavam, mas a narração do acontecimento acompanhada pela interpretação fundamentada.

Estes três professores justificam, cada um por si, a definição do meu percurso na área que escolhi para estudar e viver. Não é só a Matemática que está em tudo, mas também a História. Em todas as áreas de trabalho. Quem o nega legitima o mesmo erro do Homem duas vezes. Porque a História ensina a não errar duas vezes sobre a mesma situação.

 

Colunista:

Emanuel Areias

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