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Histórias do meu tempo de escola

Sábado, 16 de Dezembro de 2017 341 visualizações Partilhar

1. A única vez que fui "para a rua" na escola foi por incompreensão da professora de Música. Sempre fui muito bem-educado nas aulas e não dava apalpões às meninas. Preferia as amizades das meninas às amizades dos meninos. Por isso, o escárnio era constante. Na aula de Música, no quinto ano, sofri com a falta de compostura da professora, que não achou piada que um grupo de alunos prolongasse o cântico do dó, ré, mi, fá, sol, lá, si. Achando que era gozo, mandou-nos para a então sala de estudo. Achei uma falta de respeito e fiquei magoado comigo mesmo, por pensar que tinha em mim todos os erros do mundo. Até aí pensei que os adultos estavam sempre certos.

2. Numa aula de Desenho, no nono ano, julgo eu, logo pela manhã, a professora tardou em chegar e supostamente passados os famosos 15 minutos, poderíamos partir rumo às nossas vidas. A responsável pelo piso mandou-nos para fora do corredor, visto que a professora não estava. Já na sala de alunos, reparamos pela janela que a professora estava a passar pelo corredor e a deslocar-se para sala. Os mais preocupados prontificaram-se para ir a correr para a sala. Talvez em sinal de maior responsabilidade, pela qual nutria apreço. Para não ouvir comentários próprios da arrogância infantil, por parte dos meus colegas, mantive-me sentado, sem me deslocar para a sala. Formou-se uma espécie de sindicato da defesa do aluno. Não fomos à aula. O resultado foi uma valente reprimenda por parte do Diretor de Turma e a ameaça de um processo disciplinar. Se no tempo tinha medo, hoje sei que fiz muito bem em não ir à aula. Porque os adultos não estão sempre certos e não têm sempre razão.

3. A única negativa que tive foi num teste, e logo vergonhosa, de Educação Física. Mas também, neste caso, responsabilizo o facto de ter sido de surpresa e contabilizar cinco questões. O resultado é mesmo esse que estão a pensar. Um zero redondo. Em cinco questões, não tive nenhuma certa. Foi talvez o dia mais triste da minha vida. Chorei por vergonha de mim mesmo. Hoje talvez agradeça esse zero, visto que é a prova de que uma queda é só isso mesmo, uma mera e triste inoportuna queda.

4. Também me lembro que até ao Secundário não usava telemóvel. Nas vezes que levava o telemóvel, tirava a bateria e separava-a do corpo do telemóvel. Não queria que fizesse barulho numa aula, porque temia que esse barulho pudesse custar-me uma vergonha. O zelo pelo cumprimento perseguia-me e persegue-me. Às vezes é um grande defeito. Talvez hoje tivesse preferido que o telemóvel vibrasse no bolso e depois tocasse o Hino do Benfica para toda a sala ouvir. Isso não é um problema enorme nem é o fim do mundo. Mas faziam crer que era o pior crime da humanidade.

5. As crianças entre si podem ser selvagens. A arrogância de um colega acaba por gerar conversas como "aquele só estuda", "aquele só quer estar com as raparigas, deve ser maricas", "aquele não tem namorada", etc... e temos de conviver com este grau de estupidez durante demasiado tempo. Mas também a inveja move as pobres crianças. Isso é iniciativa de alguns pais soberbos e pouco cientes do que é a educação. Lembro-me de num teste de Físico-química, em que sabia toda a matéria, e por consequência, sabia responder a todas as questões, esqueci-me de responder a uma, logo depois de entregar o teste. Depois de me sentar na cadeira, e pensar na matéria, surgiu-me na cabeça que tinha deixado uma questão em branco, não por desconhecimento, mas por esquecimento. Fui até ao professor e na minha inocência perguntei se podia responder à questão. Ele confiava em mim. Ele sabia que eu sabia a resposta e não tinha consultado nada, visto que tinha sido uma questão de segundos. Respondi numa frase à pergunta, na mesa do professor, para irritação coletiva da sala. Todos salivaram de raiva e comentaram entre si, quando a porta se abriu. Talvez hoje tivesse sabido responder a toda a sala. Enrolei os braços sobre a cabeça e passei a hora de almoço a chorar. Pobre rapaz, cuja timidez era mais forte do que a bravura.

 

Colunista:

Emanuel Areias

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