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O PRIMEIRO NATAL FORA DE CASA

Sexta, 22 de Dezembro de 2017 367 visualizações Partilhar

Quando “fui estudar para fora”, era assim que se dizia, na época, estava a beirar os dezassete anos e foi em setembro de 1971.

A cimeira Nixon - Pompidou ainda não tinha acontecido, ficando um nas Lajes, outro na Estalagem da Serreta; as crises académicas sucediam-se em Coimbra e Lisboa; os aviões da TAP tinham começado a escalar as Lajes, havia pouco tempo.

“In illo tempore” uma passagem de avião custava caro, e só havia dois voos, uma vez por semana, um na direcção de Lisboa, outro na direcção de Boston, aproveitando o voo da TAP, que já existia, entre a capital portuguesa e a cidade da costa leste dos EUA. A nós interessava mais o que se dirigia a Lisboa e, com isso, o pessoal que embarcava a caminhos dos estudos mais avançados começou, rapidamente, a deixar de viajar no Angra do Heroísmo ou no Funchal. Duas horas e meia de viagem num Boeing nada tinham a ver com os cinco dias de navegação previstos, apesar de ser confortável.

Calhou-me, na vida, bater as asas nesse setembro, em direcção ao Porto, onde a confusão académica era menor, mas, principalmente, porque havia duas ou três pessoas amigas. Sim, porque isto de irem os pais ver os apartamentos, decidir das rendas, etc., é coisa mais moderna. Na época quase todos iam com um bilhete de ida e volta e raros, muito raros, eram os que vinham, no Natal e Páscoa, visitar a terra mãe.

Enfim, aqui é que começa a história. Estando eu com pouco dinheiro, como aliás era e será costume entre a faixa estudantil deslocada, dei comigo nas vésperas de Natal, transido de frio e a espreitar montras de pastelarias, sabendo que esse Natal seria diferente e longe de casa, em busca do que os meus olhos estavam acostumados: covilhetes de nata e de leite, donas amélias, cornucópias, rochedos, queijadas de coco… Nada!

Entrei numa, não propriamente a medo, mas sentindo-me em terreno desconhecido, e perguntei, aqui e ali, os nomes do que via por detrás dos vidros dos balcões. Éclairs, jesuítas, bolas de Berlim, pasteis de nata, etc. …. Convém dizer que, nesses tempos idos, nada disto existia por cá, a tradição era bem outra e o mar servia de antepara.

A vontade de adoçar a boca era tal que me decidi! Arrisquei um jesuíta e fiquei com a boca cheia de massa, mas muito pouco doce! Depois foram duas bolas de Berlim! Pareciam doces e o amarelo sugeria coisas saborosas de ovos e açúcar. Engano! Fiquei lambuzado de creme de pasteleiro e cheio de mais massa!

Quão longe, porém, estava daquela doçura, grande, das cornucópias ou dos covilhetes…!

Resultado: percebi que, se queria tirar o estômago de misérias e rearrumar as minhas memórias dos sabores certos, teria de esperar pelo agosto seguinte, cá nos Açores, na minha ilha Terceira, “limpando” meia dúzia de covilhetes de nata e rochedos, numa só merenda de verão.

Foi o que fiz e, ainda hoje, recomendo que separem pastelaria de doçaria. A nossa é doçaria! E da boa!

BOAS FESTAS a todos!

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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