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UM “ERASMUS” INTER-ILHAS?

Sábado, 17 de Março de 2018 1094 visualizações Partilhar

Por razões profissionais tive a oportunidade de estar, em menos de quinze dias, nos dois extremos do arquipélago. Gostava de partilhar convosco aqui algumas das impressões que me ficaram e, sobretudo algumas das preocupações.

Quem mora habitualmente, como eu, no grupo central, forma uma ideia dos Açores que não é a que se tem quando se está ou no Corvo, ou nas Flores, ou em Santa Maria.

Soa estranho, por um lado, saber que, continuando a estar nos Açores estamos a quase uma hora de voo de casa sendo que, normalmente, costumamos estar, no máximo, a meia hora, de carro...

O longe, o muito longe, instala-se nas nossas conversas mais simples; as queixas sobre o custo das coisas, a dificuldade de se ter o que se viu na internet mas demora os olhos da cara a chegar realmente.

O curioso é que, por via dessa mesma internet, os tempos soam diferentes. A gente sabe o que se passou, há minutos, em Buenos Aires, a gente espera e até se esquece de esperar por coisas que encomendou.

Principalmente, porém, o que a gente vê, da janela, não é o que costuma ver. É outro céu e outro mar, seja o clima arrepiado e “às cabeçadas” de vento, como me disseram, nas Flores, seja a borrasca, logo seguida de um morno, quase africano, em Santa Maria.

Os Açores são muito grandes! Feitos de mar e de distância, mais do que terra boa pra plantar o que se queira ou passear a pé enxuto, mas grandes, distantes e longínquos.

Venho com isto porque sei que fui um privilegiado. Fui de um lado ao outro, das ilhas onde moro, enquanto muitos pouco ou nada sabem.

Talvez me tenha enganado!

A gente sai, cada vez mais e muito, mas não é para a ilha em frente, ou para essas outras que determinam os seiscentos quilómetros de comprimento, que gosto de referir como sendo o tamanho do Arquipélago.

A gente sai para Lisboa, para a Europa, para a América e Canadá. A gente não sai para o resto das ilhas e isso, se antes pensava que era mau, agora sinto que é péssimo!

Porque basta estar dois ou três dias noutra ilha para se relativizar quase todas as nossas queixas e perceber que, das duas uma, ou o problema da gente é igual ao dos patrícios - como dizia Nemésio -, dessa outra ilha, ou os problemas e dificuldades deles são piores que os nossos.

Principalmente, no entanto, o que dói é o imenso desconhecimento que uns têm dos outros, porque não vivem nem viveram o tempo suficiente para perceber que a vida, em cada ilha, tem configurações, sentidos e modos diferentes.

Como já escrevi, aqui, várias vezes, falta muito para sermos um arquipélago, falta muitíssimo para sermos uma região, quanto mais uma Região, ainda por cima autónoma.

Nós continuamos a ignorar-nos uns aos outros, a ignorar os sonhos e os desejos uns dos outros.

Acho que devia haver uma espécie de Erasmus inter ilhas, ao nível do secundário, durante seis meses, pelo menos, ou até um ano, fazendo com que, quem está em idade de ter os olhos abertos veja, com olhos de ver, e possa, depois, ser parte do motor de progresso.

Podem dizer que não há dinheiro. Talvez nem haja, mas nada paga a necessidade, urgentíssima, de explicar a cada habitante destas ilhas como é aquele outro habitante, que mora “ali ao lado”.

Saber como são os outros não pode ser um prémio, é uma necessidade!

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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