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--> Hoje, dia 11 de Dezembro de 2018

MAIS UM PEDACINHO DE CIMENTO…

Domingo, 10 de Junho de 2018 325 visualizações Partilhar

Notre Dame de Paris, Parténon, Dubrovnik, Mosteiro da Batalha, Praga, Vaticano, Sintra…

O que é que isso tem a ver com Angra do Heroísmo?

O que é que isso tem a ver com os Açores?

TEM TUDO!

Estes são, apenas, alguns exemplos, dos muitos que poderiam estar aqui, de sítios do Património Mundial da UNESCO!

Melhor ou pior tratados, todos estes lugares e mais os outros 1073 do Mundo, são parte do que se poderia chamar “Primeira Divisão” da herança cultural do Mundo!

Escolhi sítios europeus, porque é essa a zona UNESCO onde Angra está incluída e trago o assunto a terreiro porque a zona central de Angra do Heroísmo, que está nessa primeira divisão desde 1983, continua a ser tratada, muitas vezes, como se não estivesse!

Poderia ter ficado calado!

De facto, o encher de betão mais uns metros cúbicos da base da muralha, junto à Prainha, em Angra, não é coisa demais e o charivari político que já se gerou poderia fazer com que preferisse o silêncio. Só que, para além dessa espuma dos dias, existem coisas que convém deixar escritas.

Porque Angra não é apenas Angra! É parte de um todo que devemos fazer começar pela capela dos Anjos, em Santa Maria, e acabar na Vila do Corvo. E é por isso que aquele cimento faz pena, porque, mais que uma atitude, mostra um pensamento.

A estrada que bordeja o mar, em volta da baía de Angra, não é muito antiga. Foi feita a partir da segunda metade do século XIX, primeiro na parte que vai em direção ao Monte Brasil e ao portinho Novo e, depois, na parte que vai em direção ao Porto de Pipas.

Antes disso, descia-se junto ao Beira Mar, virava-se á direita, passava-se um portão da muralha da Alfândega, essa, sim, antiga, e estava-se no areal, assim a modos como na Praia da Graciosa.

Fizeram a muralha, com cordão e banquetas de onde em onde, com a pedra da ilha e os tufos do lugar. Fizeram esta e outras, como uma que já quase desapareceu, entre o terreiro e a igreja velha de São Mateus, na costa sul da Terceira.

Não é velha, portanto, mas o cimento e, sobretudo, a decisão de “botar cimento” em vez de cuidar do como fazer, mantendo as artes e os saberes, exigindo acesso a pedreiras fechadas porque se tratava de mais um bocadinho de herança cultural… isso é que dói!

O cimento da Prainha não é o cimento da Prainha! É mais um pedacinho desrespeitado, destruído e mal-amado, de uma terra que, no fundo, amamos menos do que devíamos e continuamos a não saber usar para construir futuro e ser felizes.

Porque os Açores, no seu património natural ou cultural, “para turista ver” ou para habitante usar, na construção de uma vida que deve ser culturalmente rica e economicamente reconfortante, não estão isolados do Mundo!

 

Quem nos visita paga metade ou menos para ver a Notre Dame ou o Vaticano, sabe que Dubrovnik foi bombardeada, mas que, aí, procuraram usar pedra e materiais adequados e recuperados.

Se queremos criar, aqui, uma qualquer coisa, temos de saber dar a volta à distância e ao custo, rejeitando o vulgar e oferecendo, sempre, mais qualidade!

 

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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