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Dias tranquilos

Segunda, 10 de Setembro de 2018 200 visualizações Partilhar

Estar, a momentos, só e com alguma quietude é um ritual diário. Necessito desses instantes como preciso do ar que respiro para viver. É assim como uma espécie de viagem pelo que fui e pelo que sou, mas também um olhar para o que ainda por aí virá. Sou um ser sociável. Gosto de conversar, embora não goste de multidões, mas não prescindo de ter um tempo para mim, Só para mim, nem os meus botões quero ter por perto.

Nos fins de semana de Verão tenho por hábito ficar por casa. Saio apenas para passar uns momentos numa das esplanadas dos pequenos cafés que se situam na vizinhança. Hoje assim aconteceu, afinal ainda é Verão e os hábitos são o que são. Esta minha opção de recolhimento quase monacal tem, como tudo, uma justificação. Gosto do silêncio dos lugares. Como vê as razões que me assistem, por sinal, até são bem simples, embora nem sempre compreendidas. Nos fins de semana de Verão os lugares enchem-se de ruídos e eu procuro silêncios.

E assim aconteceu hoje. De sacola ao ombro onde, de entre outros objetos, carrego o livro que ando a ler, um pequeno bloco de apontamentos, uma dose de tabaco (estou a tentar diminuir o consumo) e algumas fichas cartonadas para fazer anotações da leitura, lá fui para uma esplanada da zona residencial onde vivo. Para além da proximidade e da simpatia dos proprietários o espaço não tem particularidades que o tornem um lugar especial. Localiza-se numa praceta sobranceira a uma avenida voltada para os edifícios que a ladeiam, tem apenas uma pequena “janela” por onde se avista uma nesga de céu e o alto da mãe de Deus com a sua altaneira igreja voltada a poente (para o núcleo histórico da cidade). Por aquela estreita janela pode ainda observar-se o movimento aéreo que chega e parte do aeroporto de Ponta Delgada, conforme a pista em uso.

Apesar do lugar para onde me dirigi se situar na zona com maior densidade populacional da cidade, sabia que a meio desta tarde luminosa de Verão, com a temperatura amena, a humidade elevada e sem vento não faltariam lugares e silêncios para mim. E assim foi.

Tomei café, folheei um dos diários regionais, fumei um cigarro e quando me preparava para retomar a leitura dos “Dias Tranquilos”, do escritor japonês Kenzaburo Oé[1], já se ouvia a chuva a embater no toldo que me protegia do Sol. Que bom. Bom devido aos grandes períodos de estiagem que este ano se têm verificado e a terra tão necessitada deste consolo. Olhei em frente, a Mãe de Deus continuava recortada no azul do céu, a temperatura continuava amena, o vento não se levantou, a chuva caía vertical e persistentemente e eu “tava-me” consolando com esta bênção. Gosto do som chuva, gosto do cheiro a terra molhada e gosto de estar na rua quando caiem estas chuvadas de Verão. A tarde tornou-se perfeita quando recebi um telefonema de alguém que me conhece, como ninguém, para me dizer do quanto eu deveria estar a fruir daquele momento.

Se gosto e preciso de estar só, Sem dúvida. Mas gosto ainda mais de ter alguém que respeita e compreende esta necessidade vital para o meu bem-estar.

 

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 09 de Setembro de 2018

www.anibalpires.blogspot.com

 



[1] Prémio Nobel da Literatura em 1994

 

Colunista:

Aníbal C. Pires

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