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--> Hoje, dia 20 de Outubro de 2018

O FRASCO DE DOCE

Sábado, 29 de Setembro de 2018 137 visualizações Partilhar

Há perto de quarenta anos ofereceram a meu pai um frasco de geleia de uva.

A curiosidade essencial reside no facto de ser geleia de uva americana, e a pessoa amiga ser americana, também, da Base das Lajes.

O frasco tinha a enorme vantagem de ser daqueles grandes potes de vidro, americanos, com escala em litros, de um lado, e em cups e pints, do outro lado e estava cheinho daquela geleia boa, de textura perfeita, sem grainhas nem cascas.

Estávamos naquele período de reconstrução, pós sismo de janeiro de 1980, em que a electricidade faltava com frequência, em que a água na torneira não era coisa de todos os dias, em que as ruínas e as complicações do dia a a dia era mais que muitas, em que as coisas boas se guardavam para certos dias lembrados.

O que se passou, entretanto, foi que meu pai desapareceu do mundo dos vivos e a casa de campo, onde ele viverá nos últimos anos de vida, entrou em decadência tal que, por volta de 2004, o tecto começou a ruir.

Decididas obras de recuperação dei de caras com o tal frasco, ainda fechado, numa prateleira do armário da cozinha da tal casa, mais que arruinada. Estava sujo, cheio de teias de aranha, e a tampa perdera, há muito, aquela brilho, colorido e envernizado, típico das conservas americanas dos anos oitenta do século passado.

Peguei no frasco, inspecionei a tampa a ver se fazia o plop plop indicativo de ar no interior, abri com cuidado e verifiquei, devo dizer que com não muito espanto, que o interior estava brilhante e impecável. Cheirava a geleia de uva que era um regalo e não se via um mancha, por pequena que fosse, de bolor ou de alteração de cor e textura.

A medo, provei. Nada de mau! Sabor certo, textura boa. Venceu o receio, porém, trazido pelas novas preocupações do século XXI, e decidi ir ao meio do pomar e, entre as laranjeiras, virei aquilo de borco, sacudi, deixei uma bela torre de geleia no meio da terra e das folhas e tirou o frasco, por causa da tal escala comparativa de cups e litros

Passado um mês voltei ao lugar. A bela torre de geleia estava coberta de folhas secas, terra e pequenas pedras, mas ninguém, desde formigas a ratos, lhe tinha tocado. Continuava a cheirar a uva acabada de colher...

Fiz um cova, parti aquilo em pedaços e enterrei, ao mesmo tempo que reflectia sobre a diferença entre um bom doce de fruta caseiro e aquela preciosidade industrial, capaz, literalmente, de atravessar os séculos.

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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