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A TAP, a SATA e um cenário de rutura operacional

Segunda, 15 de Outubro de 2018 267 visualizações Partilhar

A desregulação laboral no setor, o modelo de formação e qualificação, o aumento da atividade e, porque não, a crise, são algumas das variáveis que estão na origem do défice de pilotos que atualmente se faz sentir um pouco por todo o Mundo. São conhecidos casos de encerramento de empresas e, muitas são as companhias aéreas que têm as aeronaves no chão por falta de pilotos e de dificuldades no recrutamento para colmatar as necessidades operacionais.

No caso português a TAP e a SATA, ainda que com impactos diferentes que se relacionam com a dimensão e o modelo de recrutamento, não estão imunes a esta carência de pilotos, mas se existem algumas variáveis que nem a TAP nem a SATA controlam, outras há que só dependiam de medidas de gestão que as previsões, há muito conhecidas para este cenário, aconselhavam.

O desespero da TAP, até há bem pouco tempo altamente seletiva no recrutamento e formação dos seus pilotos, conduziu à tomada de medidas que levantaram uma onda de críticas no seio comunidade que está, de um modo ou outro, ligado à aeronáutica civil. Não se compreende que a companhia de bandeira tenha deixado cair o domínio da língua portuguesa como um dos requisitos para as candidaturas. Veja-se que não se trata aqui de uma questão preferencial pela nacionalidade, o que seria criticável e no contexto da União Europeia até ilegal, mas deixar cair um requisito que é intrínseco à missão e cultura organizacional da TAP é incompreensível.

Mas não foi só. A TAP promoveu um “open day” em Espanha para recrutamento de pilotos e, numa iniciativa relâmpago, deu um salto ao Brasil com o mesmo intuito. É sabido que, pelos contornos destas ações de recrutamento, grande parte dos critérios de exigência na angariação de pilotos para a TAP perderam-se em Espanha e no Brasil. Se esta situação era evitável, Sem dúvida e a TAP tinha todas as condições para ter encontrado, em tempo oportuno, outras soluções. Veja-se o número de jovens pilotos portugueses que estão a voar em companhias aéreas um pouco por todo o Mundo, ou o número assinalável de pilotos com requisitos para entrar na TAP que, entretanto, por razões diversas enveredou por outras carreiras. Mas o drama da TAP vai continuar pois, em 2020 calcula-se que as necessidades sejam bem maiores das que para este ano foram tornadas públicas.

Quanto à SATA Internacional/Azores Airlines a dimensão deste fenómeno pode ser, ainda coloco como uma hipótese, catastrófica por se estar a desenhar um cenário de rutura operacional. As necessidades imediatas apontam para o recrutamento de 20 novos pilotos que tendo, ou não, qualificação (type rating), só estarão operacionais daqui a alguns meses, isto se a SATA Internacional/Azores Airlines ainda tiver alguma atratividade para captar o número de pilotos necessários para suprir a falta destes tripulantes. Vejam-se as dificuldades da TAP e procurem-se as razões para a recente saída de um grupo de pilotos da SATA Internacional que apesar do aliciamento de última hora, feito pela empresa, não voltaram atrás com a sua decisão. Se tomarmos em consideração estes e outros aspetos não será difícil inferir que a atratividade da SATA Internacional/Azores Airlines já não é o que era.

A SATA Internacional/Azores Airlines reforçou a operação de Inverno. Ainda bem é sinal que existe procura e mercado para expandir o negócio. Lá haver procura e mercado, até há, o que não existe é quem coloque as aeronaves a voar, Pois. Assim e mais uma vez recorre-se à contratação de ACMIs, desta vez um A 320 da White. Sobre esta contratação também há alguma coisa para dizer, mas fica para outra oportunidade.

Se tudo isto poderia ter sido evitado, Sem dúvida. Podia ter sido evitado se a estratégia do representante do acionista não fosse oscilante e se as administrações tivessem sido suficientemente fortes para travar os desmandos do representante do acionista. Quanto a este assunto fico-me por aqui, embora muito fique por dizer, desde logo, sobre o modelo de recrutamento destes profissionais para uma empresa com as caraterísticas e missão da SATA Internacional/Azores Airlines.

Amanhã (hoje) o A 310 CS-TGV (S. Miguel) realiza o seu último voo, PDL/LIS, ficando assim concluído o processo de “phase out” destas aeronaves que durante 19 anos serviram a SATA Internacional. É menos uma aeronave e menos um Comandante, e é mais um dia que ficará registado, com o devido destaque, na história da SATA.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 14 de Outubro de 2018

www.anibalpires.blogspot.com

 

Colunista:

Aníbal C. Pires

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