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--> Hoje, dia 12 de Dezembro de 2018

“PEÇA DE MUSEU”

Sábado, 10 de Novembro de 2018 160 visualizações Partilhar

Não é assunto virgem, nestes escritos, mas a questão ganha relevância quando estamos a ver crescer espaços museológicos por tudo o que é sítio, seja nos Açores, seja fora deles.

Os argumentos para que existam espaços museológicos são vários, desde o serem importantes para o turismo (agora tudo é importante para o turismo…), até o serem importante para a cultura de uma comunidade (seja lá o que isso significar para os diversos grupos de pessoas que usam essa explicação…).

A questão que queria trazer a terreiro, hoje e aqui, é, porém, um bocadinho diferente: gostava de conversar sobre o que a gente quer dizer quando diz “peça de museu!”.

A frase, dita logo e depressa, aparece na boca de muitos quando se querem referir a coisas antigas e que já não servem. Na boca de outros quer dizer coisas que, pela sua raridade, beleza, estranha forma, antiguidade, merecem tratamento especial, diferente das coisas comuns, que se arriscam a partir e a estragar.

Existem muitas outras formas de expressão, mas bastam estas para tornar clara a ideia que quero passar. Para todos, ou quase todos, uma peça de museu é algo que tem pouca ou nenhuma relevância para o seu quotidiano, digo mesmo mais, para a sua vida. Quando muito em dias de festa, em dias lembrados e de honra, em momentos de comemoração de alguma coisa, pode ser que se olhe para essas peças, mas, sempre, ou quase sempre, com o olhar distante e de soslaio, pois a nossa vida não passa por ali.

Ora uma peça de museu deve ser entendida exatamente ao contrário disso! E tem de ser entendida assim, se quisermos usar esses bens culturais como herança e não como estorvo, como recurso e não como coisa pendurada aos ombros, pesada e sem préstimo.

Um museu, como já deixei aqui escrito várias vezes, é o lugar de memória da comunidade, mas não de memória simples. Não é, apenas pelo menos, o lugar onde se guardam coisas que gostamos de relembrar, de vez em quando. É o lugar da memória operativa, daquela que usamos para evoluir e crescer na vida e enfrentar problemas. Do mesmo modo que a gente tem uma parte da memória onde guarda as lembranças de coisas como saber abrir uma porta com chave e outras partes, dessa mesma memória, onde guarda as informações que nos dão, as línguas que a gente fala, etc., o museu é o lugar onde se guardam peças e memórias que nos podem e devem ajudar a ser gente!

Um museu, nunca me cansarei de repetir, é e deve ser uma Casa das Musas, lugar de inspiração, janela sobre possíveis novidades, perguntas e discussões. Num museu as peças estão lá para nos recordar atitudes, modos, pensamentos, respostas dadas.

A razão primeira e mais fundamental da existência de museus, de colecções, de gente que gosta “dessas coisas”, como alguns dizem, é o sermos humanidade! E a humanidade só evolui quando recolhe ensinamentos do passado, os reprocessa e passa adiante, a outros ou a novas gerações.

Um museu, e cada uma das peças e objectos que guarda, devem ser ferramentas auxiliares fundamentais para sermos gente. Gente inteira, em cada acto, como disse Pessoa.

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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