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CUIDAR DE NÓS!

Sábado, 24 de Novembro de 2018 117 visualizações Partilhar

Muito por via das Lajes, mas não só, costumamos ficar embasbacados com o comportamento dos americanos com quem lidamos e, mesmo, de compatriotas nossos emigrados há anos.

Em reuniões, em momentos de tomada de decisões, damos de caras, a maioria das vezes, com aquilo a que, para efeitos do que escrevo aqui, chamaria uma certa ideia de liberdade, que não é exactamente a que usamos, por esta banda de cá.

Exemplifico:

Um dia, estava eu no aeroporto de Boston, com minha mulher, quando ficámos às aranhas, por causa de uma troca de balcões onde confirmar uma alteração de reserva, comunicada pela companhia aérea. A ocasião não era de modo a andarmos à vontade, aí uns quinze dias depois da queda das torres gémeas, e aquilo estava povoado por militares de metralhadora a tiracolo e ar de poucos amigos.

O certo é que, surgindo do nada, apareceu alguém que esclareceu por onde devíamos ir. Quando quis perguntar algo mais, a pessoa desvanecera-se. Lá seguimos e resolvemos o caso.

Aquela ajuda, a estrictamente necessária, fora dada! A seguir era connosco!

Fui buscar esta historieta porque ela ilustra o que me parece ser o nosso principal problema, quando lidamos com gente de cultura anglo-saxónica, sobretudo: uma certa noção de liberdade individual e da correspondente responsabilidade. Andamos sós, somos deixados sós, pode existir ajuda para que o fluxo geral não entupa, mas é sozinhos que devemos resolver os nossos problemas e cuidar da vida.

Tenho para mim – e aqui penso nos Açores, para além das Lajes -  que, demasiadas vezes, vamos para reuniões sem o trabalho de casa feito, sem estudar as questões, sem ver os prós e os contras, sem criar uma posição de partida e alternativas de negociação. Vamos, muitas vezes, apenas com algumas ideias, e esperamos que mão amiga nos ajude, no caso de escorregar.

O resultado é que, quem fez o trabalho de casa, e eles fazem-no, não vem para a mesa de negociações para nos ajudar. Pode respeitar e respeita quem fez a sua parte, mas não está ali para defender a nossa dama. Está para defender a dama dele!

Acredito que isso terá a ver com uma certa outra forma de ver as coisas, de base luterana e calvinista, individualista em alta escala e proclamadora evidente da liberdade individual e do livre arbítrio. Coisa que, aliás, se começa a estender por toda a Europa comunitária.

A questão é que o nosso feitio mediterrâneo, solidário, gregário e tribal, continua a esperar que “o outro lado” dê uma ajuda, perceba os nossos problemas, nos ajude, até, a identificá-los. Ora, além de ela não aparecer, ainda por cima somos confrontados com situações complicadas, que não havíamos acautelado ou nem sequer pensado nelas.

Enfim! Sem perder essa nossa forma de ser, que é parte fundamental da nossa maneira de ser e cultura, convém não esquecer que nem todos pensam dessa forma. Não basta proclamar a liberdade, é preciso perceber que as suas regras não são bem aquelas a que estávamos habituados.

 

Post scriptum: Muitas das queixas que agora temos, seja das Lajes seja de Bruxelas resultam disto.

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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