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--> Hoje, dia 18 de Fevereiro de 2019

GESTÃO E SUSTENTABILIDADE DO PATRIMÓNIO

Sexta, 18 de Janeiro de 2019 110 visualizações Partilhar

Pode tratar-se de um pedaço de paisagem, de alguma animal, de um edifício ou de um objecto. A discussão acende-se, a conversa azeda e parte-se para a luta, em nome da protecção desse bem, que se pretende, doravante, transformar em bem protegido. E não é caso especial da nossa Região, onde o boom turístico é um facto.

Numa época em que tanto se fala de integração, tenho para mim que a ideia da protecção talvez seja a maior e pior inimiga da verdadeira salvaguarda do que se pretende proteger, e explico porquê. Quando a gente começa a falar em salvaguarda e protecção, o que faz, no fundo, é retirar essa coisa do circuito de vida e transformá-la em carga do restante sistema cultural, económico e político.

É como se a gente dissesse aos outros, que nos rodeiam, “façam a vossa vida como quiserem, mas não toquem nisto!”, e o resultado acaba por ser a ideia, que muitos acabam por ter, de que o património cultural, natural, paisagístico, linguístico, de costumes e de modos de pensar e fazer é, essencialmente, um peso e, sobretudo, algo que está ali porque é nosso dever proteger, mas que não serve para mais nada, senão para olhar um bocadinho e ir à vida que se faz tarde, logo depois. Uma verdadeira desnecessidade, em resumo, que nos pesa na consciência e, daí, a gente falar em proteger!

Por outro lado, talvez herança do positivismo e da sistematização de há duzentos anos, a grande questão que se coloca nas cabeças de muitos e, naturalmente, dos governos e administrações públicas é saber, quando chega a altura de “proteger” o que quer que seja, “quem é que fica com a fava!”, ou seja, quem é que fica com a responsabilidade de dizer não, de bloquear vontades, de “proteger dos energúmenos que não sabem o que é cultura!”.

Costumo começar algumas conversas com uma pergunta que já deixou vários com cara estranha. Ao falar-se de proteger uma paisagem, uma peça, uma planta, um edifício, pergunto, simplesmente: “o que é que isso tem a ver com o meu pequeno almoço de amanhã?”!!

A pergunta pretende questionar porque razão nós, que tanto falamos de integração e de inclusão, afinal tantas vezes decidimos que aquilo que é suposto ser o conjunto de “belezas e de orgulhos da comunidade” para ser “protegido”, tem de ser desintegrado, excluído, separado, de todo o resto, quando, na verdade, se trata de elementos constituintes do nosso ser colectivo e individual!

Quanto mais de pretende proteger, bloqueando o uso de alguma coisa, mais se retira do circuito económico, e lá se vai a sustentabilidade. Torna-se, portanto, uma carga.

Expressões como protecção e, até, salvaguarda, deviam ser substituídas por outras como gestão e valorização, onde a procura do uso adequado fosse o ponto de partida natural das discussões.

A questão da gestão dos bens, vistos como activos culturais ou naturais, e, portanto, integrados na economia e sustentáveis, deve ser central e interpretada de modo inclusivo e em rede, por maioria de razão numa terra como a nossa, onde tanto é usado sem medida, sem cuidado e com pouca visão do seu real valor.

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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