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--> Hoje, dia 18 de Fevereiro de 2019

TODOS SOMOS DIFERENTES

Sábado, 02 de Fevereiro de 2019 94 visualizações Partilhar

A mania, que por aí anda agora, de se falar em pessoas iguais, em direitos iguais, e, em contrapartida, de identidades diferentes, criou uma corrida estranha, em direcções opostas, ambas muito negativas, mas de resultado único: a criação de muros, em vez de pontes, de protestos e revolta, em vez de cooperação, convivência e partilha.

O discurso público pode parecer outra coisa, mas a consequência é a separação.

Por um lado, insiste-se em que uma mulher e um homem, um negro e um branco, (para falar, apenas, em algumas das categorias mais habituais desta discussão) são iguais. Por outro, escava-se até ao mais profundo, para encontrar identidades e diferenciações, e garantir que essas diversas identidades são entendidas como diferentes, para as defender como diferentes e com direito a existirem como diferentes, cada uma no seu canto.

Basta-me olhar para o espelho, para perceber que sou diferente dos outros, e também me basta olhar para o espelho para ver as semelhanças que tenho com esses outros. Só que uma coisa não invalida a outra e, quando me vêm com exemplos de caixa de lápis de cores - são todas cores, são todas lápis – esquecem que o encarnado não é o verde e o preto não é o azul escuro. Cruzam categorias e níveis diferentes e misturam o imisturável. Se nem sequer dois gémeos verdadeiros são iguais!

A afirmação, repetida, de que todos são iguais, acarreta, também, uma carga de insegurança. Perante as diferenças, óbvias, ao espelho, dizem-nos que elas não existem. Ora, toda a gente gosta de se identificar e de se diferençar. É assim que a sua individualidade se cria, que cada um percebe onde acaba o seu espaço e começa o do outro. A identificação das identidades, entretanto, pode conduzir a uma espécie de tribalização e separação de grupos, e é isso que está a acontecer, por via da insistência.

Por estas duas vias a gente anda a destruir-se e a destruir a humanidade, querendo esconder arestas, mudando palavras, homogeneizando, falsamente, o que nos rodeia, gerando surda revolta e insegurança mútua. Somos todos diferentes! Temos é muitas semelhanças, uns com os outros, umas mais que outras!

Estar, com alguém, nos mesmos polígonos de convivência, não implica nem obriga a que todos sejam iguais! Implica, isso sim, que cada um se conheça, se diferencie, se individualize e, depois, mas logo a seguir, perceba onde e através de que semelhanças é possível estabelecer relações verdadeiramente humanas, que vão desde o humor á discussão de ideias, desde a troca de receitas á explicação do Mundo.

Precisamos ser diferentes. A humanidade depende disso para ser rica e – indo buscar o conceito á biologia – resiliente. Precisamos, igualmente, descobrir o que nos caracteriza e identifica. É uma questão cultural básica. Porém, é errado procurar identidades para separar. Elas distinguem-nos, é certo, mas importam é para percebermos o que nos torna semelhantes e o que nos poderá unir, pois o futuro e a sobrevivência do ser humano, como ser social, depende disso.

A diferença liberta, a semelhança une! Penso que é por aí que temos de ir.

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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