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A problemtica da Erica azorica na Agricultura Aoriana

Terça, 03 de Julho de 2001 598 visualizações Partilhar A problemtica da Erica azorica na Agricultura Aoriana

O papel do homem na gesto e conservao da natureza dos Aores, tem de ser encarado no apenas como uma necessidade de resolver no tempo e no espao as questes ambientais, mas sim porque ele parte integrante do complexo sistema natural.

Uma das questes ambientais que se tem falado muito a problemtica da Erica azorica (nome vulgar: Vassoura; Urze; Barba de Mato) na agricultura, designadamente na Ilha do Pico. Como ponto de partida e de chegada para a conservao da natureza e qualidade de vida necessrio trazer para a ordem do dia, a noo de diversidade biolgica ou biodiversidade dum determinado territrio. No nosso caso so 9 ilhas situadas no meio do Ocano Atlntico, formando um dos vrtices da regio biogeogrfica: a Macaronsia juntamente com o arquiplago da Madeira, Cabo-Verde e Canrias.

A biodiversidade compreende trs nveis fundamentais: gentico, organismo (populao) e o ecossistema (paisagem), em que o homem interage com todos eles. A biodiversidade deve ser entendida como o conceito de vida global em sentido lato, e no como um recurso natural formado pelo somatrio de todas espcies vivas do globo terrestre.

fundamental para a continuidade das espcies a reproduo sexuada, a troca de informao gentica, a recombino de genes, de forma que do "pool" gentico de cada populao deriva novos organismos e que se mantenha a capacidade de renovar. O ecossistema implica que as espcies e o seu meio formam um todo, e para o seu funcionamento importante manter a biodiversidade. E esta garante a manuteno dos ecossistemas. Na relao entre os vrios ecossistemas (paisagens), fulcral a diversidade dos seus elementos para se garantir a ordem interna de cada um. A este nvel o papel do homem pode ser decisivo, nomedamente na "ligao em rede" dos ecossistemas com os chamados "corredores ecolgicos".

No caso concreto da Erica azorica, temos uma espcie chave no estabelecimento e dinmica de comunidades vegetais em diferentes momentos do processo natural aoriano. Surge em sucesses pioneiras, e uma espcie recolonizadora. Tem uma fraca capacidade de rejevunescimento, a sua renovao ocorre em zonas abertas sem encharcamento a partir de ncleos de disperso de sementes prximos. Apresenta uma folhagem constituda por folhas micrfilas capazes de suportar ventos intensos e fortes. Ao mesmo tempo que intersecta gua dos nevoeiros atravs da chamada precipitao oculta. Contribui eficazmente para o ciclo hidrolgico, captando um volume de gua 2 a 3 vezes superior quantidade da gua das chuvas. Em meios insulares a gua um recurso vital.

Importante formadora de solo pela deposio das suas folhas, fornecendo matria orgnica ao solo e favorecendo o aparecimento do horizonte impermevel ferro-magnesiano (placic). Estabelece uma relao de simbiose ao nvel das suas razes com fungos (micorrizas), tirando benefcios de absoro de macronutrientes em mantos rochosos lvicos, solos pobres e cidos. uma planta que no suporta nveis elevados de azoto no solo.

Proporciona abrigo a espcies raras, promovendo o aparecimento de comunidades vegetais, animais, nomeadamente avifauna e habitats. Em suma, constitui um foco polarizador de espcies, fomentando a biodiversidade dum determinado stio.

Sabemos que possui um elevado valor patrimonial, por ser uma espcie vegetal endmica, ou seja a sua origem restrita apenas ao arquiplago, no existindo em mais nenhuma parte do globo terrestre. No contexto internacional protegida pela Conveno de Berna subscrita por Portugal em 1979, e pela Directiva Habitats no mbito da Unio Europeia, transposta internamente pelo Dec-lei 149/99.

Foi desde, sempre muito til para o homem, no uso histrico de explorao dos matos, importante fonte de combustvel, utilizada nos artefactos da lavoura e na vida domstica. Encerra um valor cultural do ponto de vista tico-religioso da tradio popular. Ainda hoje, aparece como ornamento nos prespios juntamente com os musgos recolhidos no mato, o trigo germinado, as tangerinas e laranjas na celebrao simblica do Natal. Representando, de certa forma, a fertilidade e o nascimento da vida.

No captulo da conservao da Erica azorica, temos de ser cautelosos e agir com ponderao e racionalidade na procura de solues. Em primeiro lugar, temos que valorizar o nosso meio natural onde vivemos e temos de o compartilhar com todos. A intensificao agrcola o factor que mais contribui para a degradao dos recursos naturais e perda de biodiversidade nos Aores. preciso implementar a curto prazo uma agricultura sustentvel, ou seja sistemas agrcolas equilibrados de manuteno de nveis de produo e economicamente viveis, que reduzem a degradao dos recursos naturais, promovendo a economia rural e qualidade de vida a longo prazo. uma realidade insular que urge uma reflexo conjunta de todos.

No caso particular da Ilha do Pico, tem-se assistido implantao de pastagens em solos, cuja a capacidade de uso do solo no adequada para este tipo de sistema agrcola intensivo. Deste modo, no se consegue atingir nveis de produo de erva que os agricultores pretendem porque simplesmente os solos no suportam. Esta situao est partida relacionada com natureza edfica da Ilha, da que naturalmente a Erica azorica prolifera nesses solos pobres e cidos e seja considerada infestante para o agricultor. A sua presena sistemtica no terreno indicadora para se adoptar um novo sistema agrcola extensivo, logo mais equilibrado para este tipo de solos. Uma das solues poder ser a introduo de um sistema agrcola baseado no uso tradicional da terra, integrado do tipo agroflorestal em zonas que estes solos permitam, quando os solos no suportarem deve-se procurar aplicar um sistema de explorao silvcola.

De forma que estratgicamente estes sistemas contenham sempre ncleos de disperso de sementes para a sua renovao. Embora, hoje o conhecimento cientfico no nos permite dizer mais sobre os mecanismos de disperso e o distanciamento mnimo entre cada ncleo de sementes desta planta.

Em primeiro lugar, as autoridades governamentais, nomeadamente a Secretaria Regional de Agricultura, Pescas e a Secretaria de Ambiente tero de aplicar o princpio da precauo nas decises e aces a desenvolver devidamente apoiadas no conhecimento cientfico disponvel. Cabe agora s autoridades agirem com responsabilidade no terreno em estreita colaborao com os agricultores, responsabilizando-os tambm para a conservao do meio onde trabalham e vivem.

Nesta problemtica, o que est em causa no fundo uma espcie que tem implicaes importantes no Meio Insular, participa no ciclo hidrolgico, fornecendo ao homem um bem escasso : a gua. O homem para a sua sobrevivncia precisa da gua e do solo.

E para o efeito, existem os espaos protegidos de importncia para a gesto e conservao da natureza. Da que nestes espaos se deva aplicar a regulamentao da proteco das espcies e habitats sem restries. Talvez seja bom rever a delimitao de alguns espaos. Fora destes espaos a proteco legal deve-se manter, mas de uma forma concertada com as autoridades e os proprietrios.

Colunista:

Luís Vasco Lopes Nunes

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