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Para quando um plano de gesto sustentvel para a floresta de produo dos Aores?

Segunda, 16 de Julho de 2001 630 visualizações Partilhar Para quando um plano de gesto sustentvel para a floresta de produo dos Aores?

Cumprindo os compromissos assumidos ao assinar a Iniciativa Ibrica Uma Gesto Sustentada das Florestas (1997),os acordos resultantes da Conferncia do Rio (1992), e da Terceira Conferncia Ministerial para as Florestas da Europa (1998), Portugal Continental prepara-se para a apresentao e discusso pblica de normas especificas a aplicar ao sector florestal com vista ao desenvolvimento de uma Gesto Florestal Sustentvel.

E na Regio Autnoma dos Aores, qual a poltica de desenvolvimento do sector e especificamente para esta rea?

Estimativas do Servio Regional de Estatistica dos Aores (SREA) indicam que do total dos 233 320ha da superfcie dos Aores apenas uma pequena parte, cerca de 13 % esto ocupados com floresta. A percentagem de solos de aptido florestal desta Regio Autnoma ronda os 51%.

Actualmente as principais espcies produtivas regionais, todas elas introduzidas, so a criptomria, a accia, o eucalipto e o pinheiro. Outras espcies autoctenes, anteriormente muito abundantes e com elevado valor econmico, nomeadamente o vinhtico, o carvalho, a myrica faia, s existem actualmente como peas nicas no meio dos povoamentos das espcies agora dominantes.

Estimam-se os crescimentos mdios na Regio, quer para resinosas, quer para folhosas em 13m3/ha/ano, valores bem acima dos indicados pelo Conselho Nacional da Qualidade (CNQ) para o Continente e Europa, respectivamente 5,3m3/ha/ano e 3,3 m3/ha/ano para resinosas, 8,2m3/ha/ano e 3,8m3/ha/ano para folhosa.
Ainda que bastante variveis, so cortados anualmente volumes considerveis de madeira, para utilizao local, regional e para exportao (normalmente para o Continente).A titulo de exemplo podemos referir que em 1996 o abate de arvores ultrapassou um volume de 133 500m3

Pouca mais informao existe sobre este sub-sector da actividade produtora. O emprego e as receitas que gera no so de todo conhecidas. Para isso basta constatar que nas contas econmicas regionais, no Sector Primrio, a Silvicultura e Explorao Florestal dada como no gerando qualquer VAB. Tambm ao nvel do sector secundrio e segundo o SREA, o VAB gerado pelas empresas madeireiras regionais de apenas 0,02% do PIB Regional. Contudo, se a este valor adicionarmos o que foi gerado pela comercializao de madeira para o exterior e inter-ilhas, a comercializao de todos os materiais afectos a esta actividade e, ainda, a de toda a actividade florestal, sem dvida que aquele montante ser mais elevado. Apenas para exemplificar a importncia do sector para os transportes, referiremos que o movimento de madeiras nos portos da ilha Terceira, j chegou a atingir 50% do total das cargas exportadas.

Toda a gesto da floresta de produo regional tem sido feita de uma forma aleatria e ao sabor das necessidades do momento.

No existe controlo dos sistemas de explorao, programao e planeamento de cortes, nunca houve uma avaliao das potencialidades edafoclimticas, nem desenvolvimento de tcnicas florestais especificas a aplicar para um melhor aproveitamento de todo o potencial florestal da regio.

Falamos em ilhas, e como ilhas que so, os seus ecossistemas so de uma forma geral frgeis, e semelhana do que est a acontecer em outras Regies do Globo, esto bastantes alterados comparativamente ao que eram at relativamente pouco tempo.

As reservas de gua potvel so problemticas, o excessivo pastoreio, utilizao dos solos e tcnicas culturais nem sempre correctas ( excessivas mecanizaes,utilizao incontrolada de pesticidas, sobrepastoreio) aumentaram os processos de eroso e aceleraram o empobrecimento dos solos. Introduziram-se espcies exticas que se tornaram invasoras e de difcil controlo. Nomeamos a titulo de exemplo o vulgar incenso ( Pittosporum undulatum) e a bonita conteira (Hedychhium gardenarum). Esta ultima tem uma capacidade tal de propagao e competitividade com outras espcies, que aps a explorao de uma mata poder levar mesmo extino de toda a vegetao remanescente.

do conhecimento geral a importncia primordial das florestas para o futuro bem estar das populaes do planeta. Elas constituem um conjunto complexo de espcies em equilbrio perfeito, e um espao privilegiado da diversidade biolgica e de reserva gentica. Em nenhum ecossistema a interdependncia das espcies to manifesta e a sua diversidade to grande. Em termos globais as florestas contribuem para a fixao do CO2 e consequentemente para a estabilidade dos nveis de oxignio na atmosfera, para a purificao das guas, regularizao dos regimes hdricos, combate eroso e ainda desertificao. So ainda espaos de lazer e de recreio extremamente importantes numa sociedade cada vez mais urbanizada. A acrescentar a tudo isto, salientamos, e tal como j foi referido, o interesse econmico dos seus produtos finais.

tambm do conhecimento geral a elevada percentagem de destruio anual de florestas e as graves consequncias que dai advm, e do enorme esforo que se tem feito ao nvel mundial para as proteger e criar medidas globais que assegurem a explorao sustentada dos seus recursos.

A Conferncia das Naes Unidas sobre o Ambiente e Desenvolvimento, Rio de Janeiro- 1992, e mais recentemente a Terceira Conferncia Ministerial para as Florestas da Europa, em Lisboa - 1998 so o exemplo vivo da preocupao mundial em preservar to importante patrimnio. tambm a partir da Conferncia do Rio, que se acentua a consciencializao da necessidade de utilizar o comportamento do mercado e do consumidor para influenciar o modo de gesto e do uso dos recursos naturais. Os produtos florestais originrios de florestas geridas de uma forma sustentvel, sero promovidos numa sociedade consumidora, mas cada vez mais esclarecida e disposta a pagar essa sustentabilidade.

E os Aores onde esto ? certo que nos esforamos por preservar a Floresta de Laurissilva e a flora e a fauna endmica, sem duvida de elevada importncia patrimonial e ecolgica, e porque no turstica, mas ser a floresta de produo menos importante? Ou ser que, pelo facto de aparentemente os benefcios econmicos, os subsdios comunitrios e os dividendos polticos dela proveniente serem inferiores aos do sector agro-pecurio dever merecer menos ateno por parte dos nossos polticos ?

semelhana do j foi feito em outras regies do globo e que j est a ser feito ao nvel do Continente, a elaborao de normas especificas de conduta para uma gesto sustentvel da floresta de produo dos Aores urgente. Uma boa reestruturao no planeamento e ordenamento florestal, a recuperao de algumas das espcies que faziam parte do antigo patrimnio, o aumento das reas florestais, contribuiro sob o ponto de vista ambiental para a recuperao dos solos, salvaguarda dos recursos hidrcos, melhoria da qualidade das guas e do ar, recuperao de habitats em perigo de extino. Sob o ponto de vista econmico, o implemento da actividade florestal como complemento das exploraes agrcolas e agro-pecurias, utilizando os solos marginais das exploraes para floresta, em substituio da pastagem, e o uso correcto de tcnicas de florestao e explorao florestais, que aumentassem o rendimento e melhorassem o binmio custo- beneficio, sem que dai viessem prejuzos para o ambiente, iria gerar riqueza, emprego, bem estar social e servir de garantia para uma melhor proteco e conservao da floresta natural.

Para quando um plano estratgico de desenvolvimento florestal sustentvel, perspectivando a certificao florestal da Regio, e interligado com outros sectores da economia, nomeadamente a agricultura, o turismo e os transportes?

Colunista:

Maria da Conceição da S. M. Rodrigues