(Resolvi atrever-me a imitar, embora toscamente, o estilo do padre Ant?nio Vieira, como modesto contributo para a comemora??o do quarto centen?rio do seu nascimento. Aqui v?o duas pequenas cartas ? sua maneira.)
Sobre as justi?as deste mundo Conta o grande poeta Lu?s Vaz de Cam?es aquele conhecido caso dos doze cavaleiros que foram a Inglaterra defender a honra e a fama de outras tantas donzelas difamadas. Vede que torpe e vil era a justi?a desse tempo, que n?o se a fazia ou declarava pelo conhecimento da verdade, sen?o pela bravura de cavaleiros a quem seu bra?o e sua lan?a obedecessem ? vontade deles. Assim que temos num momento as doze damas de honra duvidosa perante os olhos de muitos que as viam, e logo as sabemos livres de afrontas e de aleivosias, porque mais fortes foram os nossos que os ingleses inimigos delas. Mas, n?o houvesse Deus dado ao Magri?o e seus companheiros engenho para vencerem os orgulhosos normandos, e, sendo o estado das donzelas o mesmo que sempre fora, haveriam ficado todas por perdidas e desonradas. Hoje, direis, ? mais justa a justi?a, que se a faz com inquiri?es e com devassas, com testemunhas e com advogados, com ju?zes e com a raz?o. Pois eu vos aviso: bem mal cuidais. Tenha muita prata e muito oiro o homem justamente acusado ou que injustamente acusa, e h?-de comprar, n?o um cavaleiro de bra?o que n?o ceda e lan?a que n?o rompa, sen?o um advogado de t?o pouca vergonha qu?o solta lhe seja a l?ngua, e que saiba os nomes de todos os escriv?es, e que se fa?a de amizades com todos os meirinhos, e que contrate muito bem com todos os ju?zes.
"Quid est veritas?" perguntou Pilatos a Jesus. E, sem que esperasse resposta do Divino Mestre, se dirigiu aos judeus e proclamou: "Ego nullam invenio in eo causam." ? "Eu n?o encontro nele culpa alguma." Vede como Pilatos, que n?o sabia o que era a verdade, foi ele mesmo verdadeiro, que esta ? uma das esp?cies da verdade, que ? dizer a boca o que a mente pensa. E, ainda que algu?m n?o pense uma verdade t?o certa como a de Pilatos, n?o mentir? se disser somente aquilo que cuida ser verdadeiro. ? verdade se referiu o s?bio e santo Tom?s de Aquino da maneira que bem sabeis: "Veritas est adequatio intellectus et rei." Cuidais, pois, que esta verdade, em que aquilo que sabe a intelig?ncia ? aquilo que ?, a encontrareis nos tribunais? Desenganai-vos, pois sempre h?-de haver dois homens capazes de jurar falso, bocas que n?o dizem o que os olhos viram ou a mente sabe, ou um juiz disposto a negar o seu mesmo pensamento se tal convier ? senten?a que a quem vos quer mal conv?m.
O dom da palavra
D? Deus o dom da fala a todos os homens, mas a alguns somente o da palavra. Porque tamb?m os tontos falam, pelo que n?o ? ? m?ngua de intelig?ncia que h? quem n?o fale; e falam os n?scios, pelo que ao falar n?o faz falta o entendimento; e falam os brutos, pelo que ainda que aos homens falte a sensibilidade, sendo mudos n?o o ser?o por causa disso. Mas ao dom da palavra se requer intelig?ncia, entendimento e sensibilidade. Intelig?ncia, para saber o que conv?m ser dito; entendimento, para discernir como se deve diz?-lo; e sensibilidade, para escolher o momento oportuno em que o ouvinte seja disposto a ouvir.
O dom da palavra pode abrir os ouvidos que teimam em estar fechados ou fechar os ouvidos que sempre est?o abertos. Porque h? aquilo que deve ser ouvido, e h? quem n?o queira ouvir; e h? o que n?o conv?m que seja ouvido, e abunda quem queira ouvir.
Desculpai-me se t?o mal ditei esta carta que quem ma escreve n?o a entendeu bem, ou se, ditando-a eu como devia, n?o fui entendido como convinha.
A rogo do P. Ant?nio Vieira, S. I., por n?o poder escrever,
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