Com frequ?ncia os jornalistas tendem a fixar as aten?es no acess?rio descuidando o essencial. Que ficou, por exemplo, da visita de S?crates ? Venezuela? O fumo de um cigarro. Ou que aprenderam os a?orianos do que consta no Estatuto? Pouco ou nada, mas muitos sabem o que n?o consta: a express?o "povo a?oriano". E nem sequer foi dado o devido relevo ao facto de essa mesma express?o se ter mantido no pre?mbulo, tendo sido retirada do corpo do Estatuto de acordo com a l?gica do rigor de conceitos a que uma lei constitucional obriga. Certamente por falta de clareza da minha parte, houve quem entendesse, em artigo anterior, que eu recusava o nosso direito de usar a express?o "povo a?oriano". No entanto, eu apenas fazia a distin??o entre linguagem de Direito Constitucional e linguagem corrente. H? mais de quatro d?cadas que expresso publicamente as minhas opini?es, e de certeza absoluta que ningu?m ter? encontrado nunca uma s? apar?ncia de menos amor por estas ilhas.
Mas o meu amor aos A?ores talvez seja um pouco diferente do mais comum que por c? se v?. ? que muita gente se comporta como se amar os A?ores fosse querer ? sua pr?pria ilha mais do que a todas as outras. H? muitos anos, no tempo dos planos de desenvolvimento agr?rio, houve um epis?dio que me desagradou bastante. N?o estando definida a ilha em que a sede deveria ser instalada, eu apresentei as raz?es que, a meu ver, seriam de considerar entre as hip?teses S. Miguel e Terceira.
A reac??o de alguns amigos chocou-me, porque me disseram que deveria simplesmente ter defendido a op??o S. Miguel. Ora isto n?o ? ser a?oriano de alma plena. Para mim, o Corvo conta tanto quanto S. Miguel, ou o Pico tanto quanto a Terceira ou Santa Maria. Ser uma regi?o que ? um arquip?lago tem custos que s?o dif?ceis de suportar. S. Miguel deu um exemplo excelente de democracia ao aceitar que, nos A?ores, cada ilha tivesse um peso espec?fico na elei??o dos ?rg?os da Regi?o. A vis?o restritiva de "um cidad?o, um voto" teria diminu?do, ? partida, o conceito de unidade na diversidade. A dignidade humana ? o infinito ? nossa medida.
E o infinito n?o se soma. Por isso, tudo o que faz falta a um grupo social deve ser-lhe concedido em aten??o a essa dignidade. ? certo que ?s vezes se confundem os valores, como por exemplo quanto ao Lar de Idosos do Corvo. Isolar uma senhora numa casa que emprega cinco funcion?rias ? um exagero. Mais humano seria criar as condi?es para que ela permanecesse no seu ambiente f?sico natural, e para isso nem seria necess?ria tanta gente.
No entanto, o quadro de pessoal poderia manter-se, tendo em vista a possibilidade de outros idosos necessitarem de ajuda semelhante. O mesmo j? n?o acontece a respeito da escola do Corvo. Porque uma escola mant?m viva a identidade cultural do povo que serve. Na medida do poss?vel, nascer, aprender e morrer na terra de pai e m?e deveria ser um direito de cada pessoa. H? alguns meses, Carlos C?sar anunciou a inten??o de recuperar a maternidade no Pico. Que ecos se ouviram dessa not?cia que foi das que mais feliz me fizeram nos ?ltimos tempos? Praticamente nada. Apenas um representante de um partido da oposi??o se mostrou contr?rio ? ideia por a considerar demasiado dispendiosa... No entanto, h? coisas sem pre?o, como a j? dita dignidade humana. E uma maternidade nem precisa de estar aberta vinte e quatro horas por dia, nem sequer ter pessoal residente.
Bastaria que a equipa m?dica e de enfermagem se deslocasse ao Pico quando solicitada. Porque, se n?o ? aconselh?vel uma senhora viajar nas derradeiras semanas de gravidez, n?o ? uma boa medida que isso continue a acontecer nos A?ores. Em v?rios pa?ses est? a recuperar-se at? o conceito de nascer em casa. E s? em caso de complica??o se recorre aos hospitais ou maternidades. H? custos que valem a pena. E s?o esses por que ? preciso optar, numa ?poca em que em parte se gere o Estado como uma empresa. A vida est? sempre primeiro.
|