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Daniel de Sá:
Da política e seus desalentos (contados em jeito de carta a Fradique Mendes)

 

Meu caro Fradique

Estranharás certamente que te dirija esta carta, mas faço-o porque sofro da "loquacidade divagadora da nossa raça, que tanto mal nos tem feito nas letras e na causa pública", como claramente disseste naquela que escreveste a Manuel, filho da tua "boa prima Luísa". Uma outra razão é porque hoje, como no teu tempo, há coisas que tanto faz dizer a um morto como a um vivo, a uma personagem de ficção como a um homem de carne, osso e pouco mais.

Não me exijas muito e sê paciente. No teu exílio doirado em Paris, sabias da pátria e do mundo com uma lucidez palavrosa mas certeira, como as flechas de Guilherme Tell. E o que mudou por cá, nesse mais de século que vai do teu tempo ao meu, causar-te-ia um honesto espanto, mas não pela mudança e sim por tão pouco ter mudado. Os deputados continuam a falar para galerias sem gente, que, apesar disso, os ouvem quase tanto como as cadeiras vazias do parlamento. Aqueles extremosos defensores da grei, que o são nas intenções juradas em campanha mais que nas acções consumadas em S. Bento, exibem ainda, por inépcia, conveniência ou comodismo, a mesma vacuidade a que poucos escapam.

Fosse o número de deputados dependente da quantidade de votos postos nas urnas, e não da totalidade de eleitores que jazem nos cadernos eleitorais, e já então se empenhariam por cativar pela verdade e pela acção mais do que pela promessa de paraísos e pela má-língua contra todos os que não são do mesmo rebanho. Porque, meu caro Fradique, que há-de concluir o povo ao ouvir cada partido desfazer a honra de todos os outros? Que, se quem acusa diz a verdade, nenhum deles é recomendável, e, portanto, nenhuns devem ser eleitos; ou que, se os outros partidos são honestos, mente o pregador, e, por isso, não merece ele mesmo a cruzinha eleitoral.

Imagina tu que os nossos gloriosos deputados debatem ingloriamente há muitos meses, ou se debatem na angústia de se desentenderem, quem há-de ser o próximo Provedor de Justiça. Que nome, que perfil, que partido, deverá ter ou não ter o senhor que se seguirá a Nascimento Rodrigues que, com paciência de Job, tem sido o portador da cruz para que não encontram ombros que a todos agradem, e de que ele já deveria ter sido aliviado há muito tempo e não agora por demissão voluntária?

E julgas tu que tanto prolongam a decisão, e que é tão difícil a penosa empresa, porque cada um pensa pela sua cabeça? Ainda se o fosse… Mas não é, meu caro Fradique. Como guerreiros embriagados pela ambição de um só general, todos os nossos deputados obedecem à vontade de um chefe ou dois, que por vezes é uma porque a dos contrários é outra, ou então é esta porque a dos rivais é aquela.

Zelosos se mostram eles de vez em quando. E o seu zelo tanto mais se nota quanto mais perto está uma eleição qualquer, como vai sendo o caso por estes dias. Eis por que razão uns deputados que representam os Açores se insurgiram, e requereram explicação para o transporte que uma corveta concedeu, entre a Graciosa e S. Jorge, a um grupo de deputados de um partido oposto ao seu ou a que por regra se opõem. Fez a corveta de propósito uma viagem para lhes facultar a ida? Mudou ela de rumo para tocar no porto onde os recebeu ou naquele onde os deixou? Constava esse percurso do plano inicial da viagem? Às três perguntas te darei três respostas, duas de que não e a terceira de que sim.

Ora se o navio não fez adrede uma viagem para o caso, se não mudou de rumo, se o percurso previsto de porto a porto era aquele e não outro, que inconveniente ou desperdício para a Nação representou este contestado transporte de uma corveta onde não faltam marinheiros que têm arriscado a própria vida para salvar a de outros, o que dos tais deputados já deveria ter merecido um voto de louvor bem merecido? Provavelmente, meu caro Fradique, apenas o gasto a mais de uns poucos hectogramas de combustível.

Mas, se os transportados fossem do partido dos requerentes, sem dúvida não seria posta a consideração superior a sua dúvida angustiada. Talvez porque eles estejam convencidos de que, nos seus correligionários, os corpos pesam tão pouco como as ideias.

 

Quarta-Feira, dia 03 de Junho de 2009  

 

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