Um conto de fadas ou de fados?...
Se as fadas existissem, talvez h? um pouco mais de um s?culo alguma se tivesse condo?do de um esfor?ado carroceiro que, duramente, trabalhava para sustentar a fam?lia que lhe ia crescendo ano sim ano n?o. Ela poderia t?-lo feito enriquecer de um momento para o outro. E o novo rico passaria a andar de land? e viveria feliz num pal?cio doirado.
Os fados costumam levar muito mais tempo a cumprir-se. Eug?nio de Mello cansou-se da pobreza, e partiu sem saber bem para onde. Prometiam-lhe a abund?ncia para si e para os seus. Que j? eram tantos que lhe recusavam a entrada dos cinco filhos. Deus facilitara-lhe ligeiramente a vida, chamando para Si um dos pequenos. Mas ainda assim Eug?nio teve de fingir que um deles fazia parte de uma fam?lia amiga, que o declarou como seu na chegada a um mundo dito novo mas que tinha leis estranhas. Eram os Estados Unidos da Am?rica, uma p?tria feita por emigrantes. Que s? come?ou a enriquecer quando, no s?culo XIX, uns milh?es de alem?es, de irlandeses e de judeus a procuraram como se todos eles buscassem a Terra Prometida. Levaram-lhe o rigor da organiza??o, a for?a do trabalho, a poupada administra??o das finan?as.
Os fados foram compondo a sua obra. Eug?nio trabalhou nos caminhos-de-ferro, o seu filho Frank, o primeiro dos v?rios que ainda haveriam de nascer na Am?rica, foi plantador e vendedor de ?rvores de Natal. O seu neto James, ou Jim, como ele assina, licenciou-se em Paleontologia quando aquele em que se cumpriria o conto que poderia ser de fadas j? havia nascido: Craig, que em crian?a gostava mais dos grandes espa?os livres e de passeios de bicicleta do que da monotonia do estudo. Mas foi por esses caminhos que come?ou a formar-se o esp?rito do cientista. Que, durante anos, trabalhou com amigos s?bios e t?o curiosos como ele at? uma descoberta que lhe valeria o pr?mio Nobel aos quarenta e seis anos de idade. Com a simplicidade pr?pria da verdadeira sabedoria, Craig Mello diz que esse longo e ?rduo trabalho foi explicado por algumas esta?es de televis?o americanas em uns segundos apenas?
Foi ent?o que a fama estranhamente lhe despertou o desejo de conhecer a humilde terra de que provinha uma parte da sua linhagem. Acompanhado pelo pai, a m?e, a mulher, as duas filhas, um irm?o e uma sobrinha, cumpriu-o no dia nove de Julho. Teve uma recep??o entusi?stica nessa que ? um pouco a sua terra, a Maia. Acolhido no belo Solar de Lal?m com a m?sica do Belaurora, n?o recusou o convite de se juntar ao grupo, tentando marcar o ritmo. Depois peregrinou pelas ruas onde o bisav? viveu, e comoveu-se olhando as casas em que Eug?nio de Mello morou, a pia do seu baptismo e as imagens e os altares perante os quais ter? rezado. Mas, antes de entrar na igreja, sentara-se nas escadas do adro, tal como o resto da comitiva, que inclu?a o Presidente do Governo Regional dos A?ores e sua Mulher, para assistir a uma inesperada exibi??o de uma marcha de S?o Jo?o. A Junta de Freguesia saudou-o como era devido e merecido, e declarou pai e filho, simbolicamente, cidad?os honor?rios da Maia. Os descendentes de Eug?nio de Melo e de Maria da Gl?ria, sua bisav?, ofereceram-lhe um jantar em que tanto parecia estarem a ser homenageados aqueles como o Nobel e a sua cativante fam?lia. Parte da ementa fora escolhida pelo pr?prio Dr. Jim Mello, que se lembrava do fervedouro que a av? fazia e dos chicharros que fritava ou assava. Era meia-noite, hora dos momentos m?gicos, quando se despediram.
Craig voltou ? p?tria onde nasceu. Continuar? a partilhar a sua sabedoria com os alunos e a dividir o seu tempo com a investiga??o cient?fica. E o pai, que foi director assistente do Museu Smithsonian, em Nova Iorque, n?o deixar? de cultivar, como Frank de Mello, as ?rvores que vende pelo Natal. |