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Daniel de Sá:
Não há outra Igreja?

 

Havia um fidalgo em Abrantes que se chamava Mendanha. Certa vez interessou-se pela compra de uma quinta do d?spota que nesse tempo governava o pa?s. No entanto, quando foi ver a propriedade, percebeu que ela n?o valia mais que a quarta parte do dinheiro combinado. E desistiu do neg?cio. O d?spota mandou-o para a cadeia, tirou-lhe o direito de paternidade e encerrou num convento as suas duas filhas.

Esse mesmo tirano ordenou o inc?ndio da Trafaria, porque nela se escondiam muitos jovens que n?o queriam ser soldados. E fez construir Vila Real de Santo Ant?nio, obrigando a que fossem povo?-la os habitantes de Monte Gordo.

Quando os pre?os do vinho do Porto, controlado por ingleses, subiram de tal modo que tornaram quase imposs?vel a vida dos pequenos comerciantes, estes organizaram manifesta?es de revolta. O d?spota encarcerou cerca de meio milhar, exilou mais de uma centena e fez enforcar vinte e seis, incluindo cinco mulheres. No julgamento a que foi submetido j? no reinado de D. Maria I, haveria de considerar-se misericordioso, porque, afirmou, D. Jos? lhe recomendara que mandasse executar trinta dos manifestantes.

Foi da sua imagina??o p?rfida que saiu a maior parte dos nomes dos respons?veis pelo hipot?tico atentado contra D. Jos?. Fez torturar horrivelmente os T?voras e v?rios dos seus parentes, encerrando como prisioneira num convento a futura Marquesa de Alorna, crian?a de oito anos, que s? seria libertada depois da queda do tirano devida ? morte de el-rei.

Quando chegou ao poder, a Inquisi??o tinha perdido grande parte do seu ign?bil af? persecut?rio, sobretudo pela ac??o do inquisidor-mor, D. Jos? de Bragan?a, um dos filhos ileg?timos de D. Jo?o V. O tirano, que fora ele mesmo "familiar" do Santo Of?cio (um cargo equivalente ao dos informadores da PIDE), p?s seu irm?o Paulo no comando da vergonhosa organiza??o pol?tico-religiosa. E serviu-se dela para um dos mais incompreens?veis autos-de-f? da sua negra hist?ria, o que levou vivo ? fogueira o padre Malagrida.

Para al?m de muitos outros crimes, entre os quais um dos mais frequentes ter? sido o da corrup??o, exterminou a Companhia de Jesus. Centenas de mission?rios que haviam trabalhado no Brasil morreram em pris?es absolutamente tenebrosas. Dos motivos que o levaram a isso, os principais s?o hoje tidos como verdades absolutas do conceito de liberdade. Os Jesu?tas, que eram ferozes advers?rios da Inquisi??o (o que de algum modo tamb?m pesou contra eles), lutavam pela liberta??o dos escravos e negavam que o poder real fosse de origem divina, defendendo que era no povo, que ao rei o outorgava, que ele residia.

Apesar de tudo isso, ?-lhe dedicado o mais imponente monumento escult?rico de Lisboa. Mas a sua constru??o n?o foi pac?fica. Venceu a fac??o anticlerical da Rep?blica, que sempre viu na expuls?o dos Jesu?tas um acto de justo governo e n?o uma viol?ncia inqualific?vel.

Este esp?rito de benevol?ncia de muitos em rela??o aos que combatem a Igreja Cat?lica ? velho em Portugal. Porque a julgam pelos seus erros apenas e nunca pelas suas virtudes. Uma vez mais o coro ecoa em un?ssono, transformando em rosto vis?vel da Igreja os actos hediondos de uma minoria. Nisto, o diapas?o nacional est? em harmonia com a partitura que vem de fora. Se houve a aberra??o de duzentos surdos abusados por um padre abjecto, ele passa a ser "a Igreja". Mas duzentos mil moribundos retirados das sarjetas de Calcut?, para morrerem nos bra?os das Mission?rias da Caridade de Madre Teresa, n?o contam para as estat?sticas do bem. Nem importa que a Igreja seja a institui??o que acode ao maior n?mero de leprosos, de doentes com SIDA, de cegos ou de pessoas em risco de cegar, de analfabetos, e de tantos outros miser?veis do Terceiro Mundo. Trabalham nessa miss?o universal milhares de homens e mulheres cuja paga, muitas vezes, dezenas de vezes por ano, ? o assassinato. E se h? cerca de trezentas mil crian?as, c?lculo talvez exagerado, abusadas anualmente na Alemanha, s? importam para a estat?stica da vergonha as v?timas de institui?es cat?licas.

Fazer justi?a contra estes crimes tornou-se um neg?cio nos Estados Unidos. Consta que o principal promotor dos processos em tribunal, o advogado Jeff Anderson, j? ter? ganhado cerca de sessenta milh?es de d?lares. Pagos pela Igreja americana, enquanto o Estado n?o indemnizou nenhuma das v?timas da guerra absurda com que a Am?rica destruiu o Vietname.

O Mundo est? podre. Uma parte da humanidade tudo fez, e continua a fazer, para destruir a Natureza e a sua pr?pria natureza moral e ?tica. E, ? ignom?nia dos abusos, que nos s?o contados num "compacto" de dezenas de anos, depois de a maior parte deles j? ter sido motivo de esc?ndalo e julgamento quando aconteceram, sucede a limpeza da honra com o dinheiro que tudo paga e apaga neste mundo.

 

Terça-Feira, dia 04 de Maio de 2010  

 

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