Em matérias de economia, já aqui o assumi, não chego sequer a ser um leigo: sou um ignorante mesmo. Perguntem-me com quem casou Scarlett Johansson que eu sei. Perguntem-me como é que se bate um punch com backspin que eu, mesmo não sabendo fazer, sei como se faz. Perguntem-me a quantos palmos do seguinte deve um pé de couve ser plantado que eu, não o sabendo de cor, o que tenho mais é a quem perguntar. Perguntem-me como é que se conjuga o verbo mais esquisito de que se lembrarem que eu, sabendo-o ou não, hei-de ter aí por casa alguma gramática que o explique.
Economia, não, por favor. As vantagens da desvalorização da moeda em sede de controlo da inflação? Nem perguntando. Em que medida poderá ser a poupança das famílias a conter o avanço da crise? Nem lendo. Que facturas é preciso guardar para deduzir no IRS? Tenho de ir conferir com a Dona Júlia, aquele anjo que anualmente agarra pelos cornos o caos das minhas finanças pessoais e o ordena numa folhinha cor-de-rosa, com ar de declaração fiscal a sério – e, mesmo assim, o mais natural é que me esqueça dos pormenores, acabando por responder-vos como me respondo a mim próprio: "Olhem, guardem tudo, vão metendo num saco de plástico e em Março mandem para a Dona Júlia, ou lá como é que se chama o vosso anjo em particular."
Para dizer a verdade, o dinheiro não me interessa. Não me seduz. Não me comove. Tem como única utilidade obrigar-me a levantar-me de manhã, resistindo à vocação natural para a preguiça – e, mesmo assim, para esta vida ser mesmo porreira, porreira, porreira, o ideal era ter o suficiente para não nunca mais precisar de pensar nele.
De maneira que, quanto às origens desta crise, o mais que sei é o que sobre elas fui lendo por aí, incluindo as etapas da bolha tecnológica, da especulação imobiliária e das tropelias na banca. As consequências já me são mais acessíveis de perceber, metade por olhar em volta e metade por continuar a fazer parte daquele cada vez mais restrito grupo de portugueses que ainda acha mais importante comprar o jornal de manhã do que poupar um euro para gastar em telemóveis: o desemprego aumentou, a precaridade também – e, se o FMI não acorre rapidamente a Espanha, então é que vai ser o bonito para este enclavezinho rectangular entre Madrid e o oceano plantado.
Daquelas que deviam ser, apesar de tudo, as implicações solares desta crise, como o foram das outras todas, já eu sei de saber sabido. Sei que a arte, a cultura, o entretenimento e a evasão em geral deviam estar absolutamente pujantes – revolucionariamente pujantes –, como sempre estiveram em alturas destas. E sei que não estão.
Sei que a cultura erudita, esteja bem ou mal, teima em manter-se circunscrita às suas torres de marfim, cada vez mais incapaz de dialogar com os anseios de todos os dias. Sei que a literatura, e salvo um ou outro risco assumido por este ou aquele autor (tantas vezes com prejuízo para si próprio), está, por estes dias, reduzida às noveletas chorosas passadas na Carolina do Sul, às cada vez mais estafadas historinhas de paixão ocorridas em cenário "histórico" e, sobretudo, aos desamores entre humanos, vampiros, lobisomens e papa-formigas de duas cabeças.
Sei que a música anda mais angustiada com a procura da próxima grande voz da soul, agora que Amy Winehouse passou de pele-e-osso a osso apenas, do que com qualquer outra coisa. Sei que o cinema é bonecada e pouco mais. Sei que a TV, se a grande revolução da temporada é a transferência de Fátima Lopes da SIC para a TVI, está determinada a ficar ainda mais igual ao que já era. E sei, quanto ao futebol, que nem sequer podemos despedir o Queiroz porque Madaíl decidiu pegar na nossa psique comum e arquivá-la por quatro anos.
Tanto quanto me parece, é a pior crise de sempre – uma crise que nem sequer a criatividade e a emoção têm procurado combater. E, não fosse termo-nos finalmente visto livres de João Moutinho, não havia mesmo uma só boa notícia no meio disto tudo. |