Em turismo, uma rota não é um simples alinhamento de lugares a visitar, acompanhado por um guia e com um livrinho. Supõe várias coisas, de que salientarei duas:
Primeira, uma série de parcerias com entidades que aceitam fazer parte do grupo e se organizam entre si, fornecendo cada uma serviços ou informações ao sistema;
Segunda, que os interessados possam entrar por qualquer ponto do sistema – a Rota do Vinho do Alentejo é um bom exemplo –, embora possa existir uma espécie de centro de interpretação ou portal que acaba por ser, para todos os efeitos práticos, mais um ponto da rota.
Vem isto a propósito da muito boa ideia dos percursos temáticos que andam a ser divulgados nos Açores.
Vem, sobretudo, a propósito de algo que me parece ser uma insistência – essa a meu ver errada –, nas características especiais de cada ilha, em vez de se promoverem círculos concêntricos e integradores.
Explico-me, usando um exemplo dos mais interessantes que estão a aparecer: a vulcanologia e a geologia.
De um ponto de vista global e usando apenas o que quase toda a gente conhece, quem quisesse visitar todos os Açores, deste ponto de vista, teria de passar por todas as ilhas e, desde a falésia de Santa Maria à Vila do Rosário no Corvo, passando pela montanha do Pico, pela furna da Graciosa, pelo Algar do Carvão e Monte Brasil na Terceira, pelas lagoas de S. Miguel, pela Rocha dos Bordões nas Flores, pelas fajãs de S. Jorge e Capelinhos no Faial, ficaria com uma perspectiva interessante, variada e complementar, do que são estas ilhas. Mas…
Se quisesse ou apenas pudesse ficar por uma das ilhas, nada impede que, numa rede mais fina de observação, passeio e gozo, se possa construir e ter aí elementos suficientes para construir uma rota, igualmente rica de actividades e experiências! Todas as ilhas têm vulcões, todas têm charcos ou lagoas, todas têm algum buraco no chão, todas têm barrancos e falésias com materiais diferentes, etc.
Quem fala de vulcões fala de baleação, de viticultura, de pastorícia, de música, de património edificado, de tudo!
Por outro lado, é sempre possível criar rotas complementares que estabeleçam a ligação entre coisa diversas: quando vejo um alguidar de alcatra fumegante lembro-me de um pequeno vulcão à mesa, do mesmo modo que o cozido das Furnas pode e deve ser associado a uma rota de vulcões.
Enfim, no que diz respeito aos Açores, cada vez mais me convenço que nem sequer o céu é o limite para o possível. Basta construir e organizar.
As ilhas merecem políticas de turismo inclusivas, onde cada uma tenha as suas rotas internas que, por sua vez, abram para rotas no arquipélago ou até na Macaronésia. Todos devem poder ser lembrados, visitados e ser chamados a colaborar na construção de uma verdadeira realidade arquipelágica. |