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Daniel de Sá:
Sobre a Academia Popular da Língua

 

(A Vasco Gra?a Moura, pelo amor que tem ? nossa L?ngua;
E a Malaca Casteleiro e Evanildo Bechara, que igualmente a amam.)

Houve um tempo em que muito mais que agora se estimava a L?ngua Portuguesa. Por isso no 2? Ciclo do Liceu se estudava a sua evolu??o e os seus autores mais not?veis, desde os gentis trovadores ao magn?fico Aquilino. Mas nessa viagem que acompanhava a cronologia estava um dos trope?os do programa. O percurso teria sido mais f?cil se feito ao contr?rio, come?ando na linguagem familiar dos contempor?neos e acabando no suave trovar dos antigos. E assim, sem mais penas que as necess?rias, ter?amos ido do morrer de amor de Ana e Sim?o at? ao "moiro d?amor" de D. Dinis, passando pelo "moura e pere?a" de Lu?s Vaz.

Faz parte da natureza da L?ngua evoluir. Nem o Latim deixou de mudar quando se tornou numa l?ngua dita morta, pois continua vivo na heran?a directa das sete l?nguas latinas e seus dialectos, nas v?rias que receberam dele grande parte do l?xico e at? na taxonomia. Mas os legion?rios que Roma recrutara nos quatro cantos do Imp?rio, e que nos trouxeram uma l?ngua j? algo distinta da que se falava no L?cio, t?-la-?o feito evoluir? Ou corromperam-na, conforme pensava V?nus pela pena de Cam?es? E, se talvez nenhum deles falasse da mesma maneira que por esse tempo C?cero escrevia ao seu amigo ?tico, ainda falariam Latim?

Foi nessa transfigura??o da l?ngua do L?cio que continuou a ser forjado o Portugu?s. De celtas e outros povos tinham ficado voc?bulos que permaneceriam at? hoje, e mais tarde se lhe iriam juntando muitos de ?rabes, guaranis, chineses, quimbundos, de todos os povos com quem aprendemos novidades, fosse a do ornamental azulejo ou a do ex?tico maracuj?, a do reconfortante ch? ou a da pobre senzala. E por onde ?amos tamb?m ?amos ajudando a cumprir esse fad?rio das l?nguas, o de serem mud?veis.

Mas se a L?ngua n?o ? imut?vel no l?xico, t?o-pouco o s?o em si mesmas as palavras que o constituem, at? porque desse pecado original ? que todas nascem e se desenvolvem. E ? tamb?m nessa inconst?ncia que os apoiantes do Acordo Ortogr?fico encontram abrigo para a defesa das suas posi?es. Mas ser? leg?timo impor regras politicamente legisladas ao que por sua natureza ? patrim?nio colectivo e responsabilidade partilhada da na??o? A primeira grande intromiss?o do poder pol?tico nas leis que regem a L?ngua aconteceu com a iconoclasta Rep?blica, que n?o se limitou a mudar de rei para presidente, mas mudou tamb?m a bandeira, o hino, a moeda e a pr?pria ortografia, tendo tentado mesmo intervir no esp?rito religioso popular. Como se do Portugal com quase oito s?culos nada pudesse ficar para mem?ria futura.

Sim, esta l?ngua tem vindo a mudar sempre, desde que o Latim perdeu as declina?es e se adaptou ao rude falar dos legion?rios e dos povos conquistados, tornando-se no latim dito b?rbaro ou vulgar. E todas essas mudan?as e as que aconteceram depois se deveram ? necessidade de facilitar a comunica??o, a caracter?sticas naturais da fona??o ou a erros dos falantes, que de t?o repetidos passaram a ser norma. Mas esta altera??o da norma n?o surgia por acaso nem por gera??o espont?nea. Os portugueses enamorados n?o adormeceram numa qualquer noite morrendo de soydade pela mulher amada, para despertarem na manh? seguinte com a saudade t?o viva como na v?spera. Diferentes formas para a escrita, ou a pr?pria pros?dia, da mesma palavra t?m coexistido sem conflito durante d?cadas, talvez s?culos. Segundo os escriv?es de D. Manuel I, o poderoso rei ora regulava o com?rcio do "assucar", ora oferecia umas quantas arrobas de "a?ucar" a quem lhe aprouvesse. Ainda no mesmo s?culo, o XVI, n?o faltou quem satisfizesse a gulodice com doces torr?es de "assuquere". Mas, no s?culo XVII, j? n?o havia d?vidas. E todas as palavras que em ?rabe come?assem como aquela (as?sukkar) haveriam de ficar no Portugu?s com o princ?pio em "a?", como a?ucena ou a?ude. Por vezes, ao fim de muito tempo de tal coexist?ncia, os dicionaristas ? definitivos sancionadores do padr?o da L?ngua ?, vencidos pela persist?ncia de diferentes grafias, registavam as variantes. E assim temos, por exemplo, "disfrutar" e "desfrutar", ou "l?mpada", "lampa" e "al?mpada", todas elas de curso legal segundo os dicion?rios. (S?o v?rios os casos da pr?tese do artigo com o substantivo, alguns mesmo da preposi??o com o verbo. E foi muito comum a escrita de preposi?es, copulativas e artigos juntando-os ?s palavras que regiam. Ainda no s?culo XVIII acontecia, v.g. "o padre tirando-o com toda areverencia, o entregava com toda a decencia" ? Diet?rio do Mosteiro de S?o Bento da Bahia, transcri??o de Al?cia Duh? Lose. Ou "todas asindulg?ncias que osenhor capel?o", "efoi corista en oanno demil equinhentos" ? relat?rio do vig?rio do Cartaxo sobre o estado em que ficou o concelho depois do terramoto de 1755, transcri??o do autor.)

Para a evolu??o da L?ngua, no princ?pio foi o povo, que nunca se demitiu dessa fun??o. Para a fixa??o da norma, embora muitas vezes transit?ria, ter?o servido de modelo cronistas de El-Rei, poetas e escritores como Cam?es ou Vieira, Camilo ou Herculano. O s?culo XX tornou-se sobretudo o tempo do imp?rio dos jornais, para a grafia, e da r?dio e da televis?o, para a pros?dia. Acerca desta surge uma das pol?micas do Acordo. H? os que dizem que a altera??o da grafia talvez a altere tamb?m, e h? os que o negam. Se do futuro nada se pode afirmar, do passado temos exemplos variados de como a grafia muitas vezes condiciona a pron?ncia. Dois casos recentes s?o "paisagem" e "saudade". Aquela, que deriva de "pa?s", embora por via do Franc?s, escrevia-se com trema para que a raiz fosse respeitada ? "PA?SAGEM". E "saudade", tamb?m para desfazer o ditongo, tinha direito a trema igualmente ? "SA?DADE". Desaparecido um e outro, poucos s?o os que ainda dizem "pa-i-za-jem", enquanto que alguns j? pronunciam "sau-da-de". A nossa "id?ia" j? foi assim, acentuada como ainda ? a brasileira. O que se justificava pela diferen?a pros?dica em rela??o ao mesmo ditongo, em "cheia" ou "areia", por exemplo. Eis, pois, outro caso em que a perda do acento exerceu influ?ncia em alguns falantes do portugu?s de Portugal. E, se a pron?ncia do Norte tivesse persistido na pros?dia nacional, pois ent?o o Porto certamente haveria de ser uma "NA?A?", tendo-se mantido o til sobre a vogal final, que a? era o seu lugar. Curiosamente, foi ainda assim que foi escrito no referido Diet?rio do Mosteiro de S?o Bento da Bahia.

Quanto ao "e" em s?laba inicial, tem-se tornado uma v?tima do sistema? ? frequente n?o ser lido com o som de "i" em casos em que assim deveria ser. Por exemplo "Emanuel" que, no entanto, j? se escreveu "Immanuel" ou "Imanuel", acontecendo o contr?rio com "igreja", que j? foi "egreja". Prova de que "Emanuel" sempre foi para ser dito "IMANUEL" e "igreja" j? seria assim, mesmo quando era "egreja" devido ? sua origem greco-latina.

O grande argumento dos defensores do Acordo ? o da conveni?ncia de harmonizar o Portugu?s em todo o espa?o onde se o fala. Mas n?o ser?o as aus?ncias de uns velhinhos "p?s" ou de uns inocentes "c?s" que facilitar?o a comunica??o com quem tiver aprendido Portugu?s depois de adulto. A maior dificuldade est? relacionada com a riqu?ssima diferen?a do l?xico e da pros?dia dos pa?ses lus?fonos em rela??o a Portugal. Com essas caracter?sticas o Acordo, obviamente, n?o se atreve a bulir. E felizmente n?o poderia faz?-lo, ainda que o tivesse querido. Por isso apenas resolve uma ?nfima e superficial parte do problema. Tanto mais que, permitindo grafias duplas, acaba por criar alguma confus?o entre pros?dia (pessoal ou de grupo social) e ortografia. Os jornais que aderiram de imediato ?s novas regras t?m demonstrado isso mesmo.

Nenhuma mudan?a repentina ? f?cil de aceitar. Uma experi?ncia curiosa, e de certo modo extravagante, foi feita por Juan Ram?n Jim?nez, que chegou a usar sempre a letra "z", para representar a fricativa dental surda, e o "j" em vez do "g" gutural. E se isto n?o adulterou a qualidade da tradu??o de Tagore, feita por Zen?bia, sua mulher, e por ele, t?o-pouco trouxe algo de novo ? l?ngua castelhana, que de modo algum se interessou por tal simplifica??o. O pior inc?modo, no entanto, era de natureza est?tica. Porque a est?tica tamb?m ? um h?bito.
Enfim, a Rep?blica, que tirou ? L?ngua o "p" de Egipto e o devolveu em 1945, agora que o apagou novamente bem poderia voltar a p?-lo no seu lugar. Por raz?es muito faladas j?. E que nos fosse permitido continuar a distinguir os olhos dos ouvidos (?ptico e ?tico), ou que o "c" segurasse o tecto, contra todas as d?vidas? Porque o que ? novo nem sempre ? melhor do que o antigo.

Maia, S?o Miguel, Mar?o de 2011
Daniel de S?

 

Quinta-Feira, dia 14 de Abril de 2011  

 

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