Quando acontecimentos hist?ricos est?o nublados pela lenda, a lenda prevalece sobre a hist?ria quase sempre. ? este o caso do culto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres. Uma vez mais, a lenda esteve presente no muito que se disse ou escreveu a prop?sito das Festas deste ano de 2011. Infelizmente poucos se t?m preocupado com a cr?tica hist?rica, aceitando como definitivo o que vem sendo dito de gera??o em gera??o sem qualquer fundamento seguro. No entanto, os erros mais frequentes acerca da t?o venerada imagem revelam-se claramente sem ser preciso vasculhar em arquivos, que ali?s pouco guardam a seu respeito? Basta um calend?rio perp?tuo e pouco mais. Analisemos, pois, os erros mais comuns, e apenas aqueles que s?o de facto evidentes.
Prociss?o dos tremores ? Uma das vers?es mais frequentes acerca da primeira prociss?o diz que se tratou de um acto de penit?ncia por causa dos tremores de terra que estariam a acontecer em S?o Miguel, datando a mesma de 11 de Abril de 1700. O erro da data ? mais que ?bvio, por aquele ter sido dia de P?scoa e a prociss?o ter ocorrido em dia de trabalho, al?m de que ? inconceb?vel uma prociss?o com o Ecce Homo no dia da Ressurrei??o? Quanto a tremores de terra, n?o h? qualquer registo deles nesse tempo. E, sendo 11 de Abril de 1698 a data mais prov?vel para a referida prociss?o, t?o-pouco nesse ano se registaram sismos fortes em S?o Miguel. Houve-os, sim, na Terceira. Mas a visita da imagem aos outros conventos de Ponta Delgada n?o poderia ter rela??o com eles, uma vez que aconteceram em Outubro. Em Angra organizou-se uma prociss?o com o Senhor Santo Cristo da Miseric?rdia (uma imagem de Jesus crucificado), que passou a ser alvo de grande devo??o porque os tremores deixaram de ser sentidos. A segunda prociss?o em Ponta Delgada com a imagem do Senhor Santo Cristo ? que teve como causa uma violenta crise s?smica, que afectou toda a ilha, especialmente a zona ocidental. Esta prociss?o n?o aconteceu em 17 de Dezembro de 1713, como diz o padre Jos? Clemente, mas na v?spera, um s?bado, conforme se depreende de uma carta escrita a Madre Teresa por Madre Jer?nima do Sacramento, do convento de Santo Andr?.
Ida a Roma ? Esta ? a mais repetida e praticamente ?nica vers?o da origem do convento da Caloura. Supostamente duas jovens, Isabel Afonso e Petronilha da Mota, teriam ido a Roma, na d?cada de 1520, pedir ao Papa bula para a funda??o de um convento em Vale de Caba?os, na Caloura. S? quem n?o faz a m?nima ideia do que era a vida a bordo naquele tempo e uma viagem a Roma pode julgar poss?vel que duas raparigas n?o acompanhadas se atrevessem a tal aventura. Tanto mais que n?o havia qualquer necessidade de ir ao Vaticano solicitar a cria??o de um mosteiro. E Gaspar Frutuoso, que dedica um cap?tulo inteiro das Saudades da Terra a contar minuciosamente a funda??o do convento da Caloura e a mudan?a das freiras para Vila Franca e Ponta Delgada, n?o faz qualquer refer?ncia ao acontecimento, que, a ter sido real, seria coisa muito digna de admira??o, n?o podendo pois o cronista deix?-lo passar em claro. E note-se que Frutuoso tinha cerca de vinte anos quando parte das freiras de Vale de Caba?os se mudou para o convento da Esperan?a, o que faz dele uma testemunha privilegiada desses tempos remotos.
Data errada ? H? erro na data que consta normalmente como a da ida das freiras do Convento da Concei??o para o da Esperan?a. Gaspar Frutuoso diz que a mudan?a aconteceu em Domingo de Pascoela, a 23 de Abril de 1540. Neste ponto falhou a mem?ria do cronista, o que n?o espanta, pois escreveu v?rias d?cadas mais tarde. ? que em 1540 a Pascoela foi a 4 de Abril. O padre Jos? Clemente e Ernesto do Canto afirmam ter-se tratado de 1541. No entanto, a data ter? sido 24 de Abril, este sim Domingo da Pascoela, e n?o 23, porque em 1541 a P?scoa foi a 17 de Abril.
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