Meu Caro Ramalho Haver? melhor maneira de desabafar do que faz?-lo com os mortos? ? que voc?s ouvem tudo em sil?ncio, ou nem sequer ouvem. Muito mais convenientes do que as canas da hist?ria do pr?ncipe com orelhas de burro. Pois que ?quelas se foi o pobre barbeiro a falar da afli??o que lhe ia na alma por ser t?o grande o segredo que deveria guardar, e bem sabes como t?o mal guardado ele ficou afinal. N?s por c?, incapazes de falar a canas ou a pedras, escolhemos de vez em quando o jornal para os nossos desabafos. O que a bem dizer ? quase a mesma coisa. Porque, se ? certo que n?o nos faltam pr?ncipes, embora sem orelhas como as do outro, por vezes parece que nem orelhas t?m. Pr?ncipes ou reis que, com frequ?ncia, v?o nus. Mas n?o tenhas pena, que o clima ? ameno. Estas ilhas, vistas por quem vem de fora, fazem um figur?o. Temos por c? v?rias palavras m?gicas, quase sacralizadas. As de invoca??o mais corrente s?o turismo e autonomia. Uma justifica todos os gastos, a outra justifica todas as exig?ncias. Dos gastos em quest?o, pode dizer-se que os turistas chegam praticamente comprados. Com a agravante de que quase nunca ser?o os que se tenta comprar que realmente v?m. Ou cr?s, por exemplo, que umas vacas continentais, postas nas principais pra?as de Lisboa a fingirem que eram a?orianas, fizeram com que algu?m ficasse perdido de amores por estas ilhas? Teria tido muito melhor resultado pagar a viagem a um milhar de lisboetas. Que depois correriam o risco de serem mal recebidos. N?o por falta de simpatia, que ? f?cil at? haver excesso dela, mas por falta de jeito. H? umas semanas, uma senhora espanhola perguntou no hotel onde se hospedara por um s?tio de interesse para visitar em Ponta Delgada. Sabes o que lhe foi aconselhado? Nem imaginas? O Parque Atl?ntico! Uns dias depois, encontrei um casal de alem?es. Pediram-me umas informa?es, e metemos conversa. A senhora contou-me que lhes haviam dito que n?o valia a pena ir ao Nordeste. Porque n?o tinha nada que ver e as pessoas eram atrasadas! Deus do C?u! O Nordeste onde, por essa altura, um amigo meu viu um turista estrangeiro chorar de emo??o ? vista da Tronqueira. O Nordeste das pessoas de falar suave e fino trato. Mas, afinal, j? l? tinham ido, e vieram maravilhados. Com a limpeza (que lhes pareceu uma caracter?stica de S?o Miguel, valha-nos isso), com a paisagem e com a abund?ncia de flores. Perguntei-lhes onde estavam hospedados. Na Caloura. J? tinham ido ver o museu? (Referia-me, obviamente, ao Centro Cultural do Castelo.) N?o sabiam de nada. E tinham ido ao porto? Ningu?m lhes dissera que valia a pena, nem sequer que havia um porto na Caloura. Aconselhei-os a irem ? hora do ocaso, para se deliciarem com a dan?a das andorinhas-do-mar e das gaivotas. A senhora disse-me ainda que os alem?es sentem fasc?nio por S?o Miguel. Mas que nunca vira qualquer publicidade desta ou de outras ilhas dos A?ores. A propaganda ? feita de boca em boca por quem aqui j? tenha vindo. Aqueles n?o vieram, portanto, por causa das vacas na pra?a do Marqu?s ou dos jantares das feiras de turismo, nem por via de nenhum dos "sites" (desculpa l? a palavra) que, supostamente, tamb?m atraem turistas. Ali estavam, pois, meu caro Ramalho, dois bons exemplos de turistas que n?o foram comprados. Sa?do-te, com inveja da tua pena para escrever "farpas" como as tuas e do E?a. |