A surpresa para os tecelões de Londres foi enorme e terrível quando, em 1785, alguém lhes apresentou uma peça tecida num tear mecânico. Um burro fora capaz de tecer essa peça, tão bem como qualquer dos mais hábeis mestres da arte! Na verdade não fora o burro, mas a habilidade de Edmund Cartwright, que concebera e realizara toda a complexidade do tear mecânico. No entanto, o que ficou na memória das gentes foi essa imagem de um burro tecelão. Um invento não é uma inovação e foi o que aconteceu a Cartwright que, embora criador da máquina, não obteve sucesso industrial e, nem sequer Joseph-Marie Jacqard, em 1801, que inventou, em 1801, um sistema de cartões perfurados destinado a orientar a máquina na escolha dos fios de cores, seguindo um padrão pré definido. A máquina, até aí serva do ser humano artesão, transformava-se aos olhos de todos na senhora e na ditadora dos tempos, dos compassos e das velocidades! Em toda a industrialização posterior o embaratecimento dos produtos resultou, sempre, de mais tecnologia e menos presença e força humanas. Se, num primeiro período, os maquinismos ainda precisaram de gente laboriosa em volta deles, a abastecer ou a realizar pequenas tarefas demasiado complexas, hoje, com os progressos da robótica, da informática e computação, os seres humanos são quase – ou até absolutamente – descartáveis em muitos processos produtivos. Desse modo, pode até dizer-se que somos vítimas do êxito, quase absoluto, do mais íntimo, antigo e profundo desejo da humanidade: libertar-se do trabalho, daquela condenação bíblica anotada no Génesis. Mas surgem as perguntas: Se as máquinas substituíram as pessoas, se cada vez mais máquinas substituem cada vez mais pessoas…fazemos o quê, agora? Trabalhamos onde? Naquele dealbar da Revolução Industrial, centenas e centenas de pessoas deixaram de ser artesãos, ficaram sem espaço para produzir, perderam estatuto social. Outras, e as mesmas, ganharam empregos. O que não é a mesma coisa do que ser artesão, mas permitia ter pão e sobreviver. Algumas ganharam outro estatuto social. Sobretudo, a quantidade de postos de trabalho aumentou muito e, embora de modo diferente, os seres humanos existentes à face do Planeta encontraram lugar onde trabalhar, onde produzir, donde retirar os proveitos necessários ao viver. Mas o Mundo nunca mais foi o mesmo! Não é novidade dizer-se que estamos no limiar de um tempo tão novo como foi esse do tear e do burro. Na época, como agora, as pessoas tiveram de reinventar e encontrar o seu novo lugar na comunidade. Os cursos, as formações e os conhecimentos de hoje só garantem, cada vez mais e apenas, competências de partida e não postos de trabalho. Esses, acredito, terão de ser, cada vez mais, procurados nas áreas da sociedade e das necessidade sociais e comunitárias, daí o crescimento do turismo, das chamadas indústrias culturais, das áreas de pesquisa e ciência. Afinal aquilo que é característico do ser humano e que, verdadeiramente, o diferencia.
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