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Daniel de Sá:
Quase humor e povoamento

 

Apesar de ser lastim?vel que se saiba t?o pouco e se tenha inventado tanto acerca do povoamento dos A?ores, h? hip?teses de tal maneira estranhas que chegam a dar vontade de sorrir. Tanto em pequenos ensaios sem pretens?es acad?micas como em sisudos livros de capa e lombada, pode encontrar-se surpresas divertidas. Outras h? que n?o t?m gra?a nenhuma. Procurando nos arquivos da mem?ria, recordo algumas delas.
Houve uma vez em que dei com uma informa??o intrigante. Dizia-se que Santa Maria fora povoada por degredados e velhos. Levei algum tempo a entender que velhos eram aqueles. Tratava-se, sem d?vida, de confus?o com o apelido Velho, dos v?rios familiares de Gon?alo Velho Cabral que o capit?o chamou para iniciar o povoamento da ilha.
Quanto aos degredados, n?o foram eles t?o frequentes quanto alguns pensam, nem se tratou nunca de perigosos fac?noras. E parece ter havido uma certa resist?ncia em receber ladr?es, traidores e pessoas de religi?o n?o cat?lica. Pelo que se conclui que a generalidade dos exilados n?o passaria de autores de faltas menores. Era preciso povoar as ilhas, pelo que qualquer pretexto servia para obrigar a vir gente para c?, sobretudo mulheres, j? que os homens menos dificilmente se aventuravam ao desconhecido. Por isso aconteceu o triste caso de Catarina Fernandes. A rapariga n?o fez mais do que ter testemunhado a respeito de um assass?nio a que assistira. Mas o infante D. Pedro, regente do Reino, mandou-a para o ex?lio aqui. Tinha apenas dez anos! Ela cumpriu outros dez de degredo, "nas ilhas de S?o Miguel", at? que foi perdoada (n?o se percebe de qu?) por D. Afonso V.
Aparece tamb?m com frequ?ncia a alus?o a escravos e negros entre os povoadores. Com algum exagero. Para S?o Miguel ter?o vindo doze casais de mouriscos, sob o mando de Jorge Velho, mas para provarem que e ilha era habit?vel. Tamb?m o Corvo foi primeiramente habitado por escravos, que o seu senhor, e dono da ilha, a ela enviava para a cultivarem. Outra refer?ncia habitual ? a da vinda de judeus. Sobre este tema escreveu Eduardo Mayone Dias, no jornal Portuguese Times de New Bedford: "? bem prov?vel que se houvessem fixado judeus nos A?ores desde os primeiros tempos do povoamento. /?/ No entanto, como afirma o Professor Francisco dos Reis Maduro Dias, n?o existe qualquer documenta??o sobre esta presen?a."
A pr?pria geografia dos A?ores pode reservar-nos surpresas desconcertantes. Como aquela que considera Santa Maria dividida em duas partes. Uma, montanhosa; a outra, plana, que ? o Barreiro da Faneca. (A grande publicidade dada a esta magn?fica paisagem talvez explique a confus?o, bem como o facto de haver quem pense que dali sa?a o famoso barro de Santa Maria. Os p?caros da ?gua sempre fresca ou os alguidares dos apetitosos chouri?os eram feitos com argila da Flor da Rosa. A da Faneca n?o serve para olaria.)
Ou ent?o uma trapalhada que junta v?rios s?tios num s?, ao afirmar que no lugar da Praia, a que foi dado o nome de Lobo (sic), e que depois se chamou Vila do Porto, se construiu a primeira ermida de Santa Maria.
Quanto ? forma??o geol?gica das ilhas, h? a preciosidade de um autor que, depois de dizer que a rocha foi formada por vulc?es, revela o inimagin?vel ? que a terra foi trazida pelo ar e pelo mar?
A Hist?ria feita por dedu??o nem sempre resulta? O erro mais generalizado, em que at? historiadores credenciados t?m incorrido, ? o das famosas chamin?s de Santa Maria, que algu?m sup?s terem resultado da influ?ncia de povoadores algarvios, que os n?o houve naquela ilha. Al?m disso, sendo as chamin?s uma inven??o do s?culo XII, tardaram em fazer parte das casas dos pobres. Conforme escreveu Andr? Brue (um alucinado que foi embaixador no Senegal, e que, apesar de ter estado uns meses na Terceira no in?cio do s?culo XVIII, teimava que os A?ores pertenciam ? ?frica) a maioria das casas do Faial n?o tinha chamin?. As apar?ncias (que neste caso entre Santa Maria e o Algarve nem sequer existem!) iludem. Mas facilmente se encontram outros exemplos que, embora n?o alterando tanto a verdade hist?rica, a distorcem consideravelmente. Foi o que aconteceu com o sotaque micaelense, que at? os mais empenhados fil?logos atribu?ram a reminisc?ncias de povoadores alentejanos da regi?o de Nisa. Afinal, o que aconteceu foi uma viagem ao contr?rio. Em 1796 Pina Manique fez deslocar para o Alto Alentejo umas centenas de fam?lias de S?o Miguel, a fim de ocuparem herdades abandonadas. E o seu modo de falar ter? permanecido naquela zona.
H? um historiador que d? os top?nimos Flor da Rosa e ponta do Marv?o, em Santa Maria, tamb?m como prov?vel heran?a alentejana. O primeiro talvez o seja, tanto mais que veio gente de Estremoz, que n?o fica longe daquela freguesia do concelho do Crato. Mas, segundo Gaspar Frutuoso, o nome da ponta do Marv?o resulta de ter sido seu propriet?rio Francisco Marv?o. Deste n?o regista Frutuoso a naturalidade, mas de Jo?o Marv?o diz ser do Sabugal, pelo que o mais razo?vel ? pensar que Francisco tamb?m o fosse. O mesmo historiador leu mal Frutuoso ao atribuir a origem do nome da Algarvia e o do Pico da Algarvia a duas mulheres e n?o a uma somente. Gaspar Frutuoso, ao falar do pico, diz que ele deve o nome a uma mulher do Algarve que ali viveu com o marido, e de quem herdou as propriedades quando enviuvou. E, para que n?o restem d?vidas de que se tratava da mesma pessoa, acrescenta "como tenho dito".
Ainda um outro equ?voco, muito frequente sobretudo por parte de micaelenses mais bairristas, ? o que respeita ? cria??o da diocese. Ao contr?rio do que h? quem pense, o Papa n?o se enganou. A haver engano, seria de D. Jo?o III ou do escriv?o que fez a carta. E houve, porque nela falta a ilha de Santa Maria e se confunde S?o Miguel com a Terceira. No entanto, s?o sempre referidas Angra e a igreja do Salvador. N?o podem subsistir d?vidas quanto ? vontade de El-Rei. A vila de Angra era naquele tempo a mais not?vel dos A?ores, com import?ncia mundial na rota entre tr?s mundos. O facto de D. Jo?o III a ter elevado ? categoria de cidade, condi??o necess?ria para ser sede de uma diocese, e n?o Ponta Delgada, ? prova segura da sua inten??o.

 

Quarta-Feira, dia 11 de Janeiro de 2012  

 

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