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Daniel de Sá:
A persistência dos mitos

 

A meados do s?culo XIX, pensou-se que a ilha de Jacquet seria uma boa hip?tese para nela ser instalada uma esta??o do cabo telegr?fico submarino que ligaria a Europa e a Am?rica. Estava cartografada a 47 graus Norte e 43 Oeste, situando-se a menos de quatrocentas milhas da Terra Nova. A este respeito, Thomas Wentworth Higginson escreveu "foi proposto achar uma esta??o para o tel?grafo no oceano na ilha de Jacquet, /?/ imagin?ria e que s? recentemente desapareceu dos roteiros mar?timos."
(Higginson ? autor do interessant?ssimo livro "O Faial e os Portugueses". Demonstrando a natural perplexidade de um americano culto do s?culo XIX perante a maneira ancestral da vida faialense, Higginson tem momentos de alguma ironia, como este em que caracteriza as casas do Faial: "os edif?cios n?o t?m chamin?s mas ?s vezes h? uma chamin? que tem um edif?cio".)
Jacquet foi a ?ltima ilha lend?ria sepultada definitivamente no limbo da fantasia. Todas as outras haviam desaparecido da imagina??o sem que se tivesse confirmando a exist?ncia ao menos de uma, porquanto das muitas que foram achadas no Atl?ntico nenhuma correspondeu ?s caracter?sticas do mito. A aproxima??o do nome do Corvo ao de Insula Corvi Marini n?o passar? certamente de coincid?ncia. Se aquela ilha dos A?ores houvesse sido chamada tendo em aten??o a lenda, teria ficado certamente como Corvo-Marinho. Ao inventar nomes para ilhas apenas imaginadas, n?o admira que a alguma delas fosse dado o deste g?nero de aves, abundantes nas costas continentais, n?o havendo por?m nenhuma esp?cie que nidifique nos A?ores.
Gago Coutinho, que viajou no Atl?ntico com meios n?uticos semelhantes aos existentes no s?culo XV, escreveu:
"Haver? pois que desfazer a ?opini?o? de alguns ? digamos Historiadores rom?nticos ? os quais, de mapas feitos no s?culo de 1300, conclu?ram que os A?ores j? tinham sido descobertos at? antes do nascimento do ?Infante D. Henrique?, desprezando a sua interven??o, continuada por outro infante, depois o Rei D. Jo?o II.
"Aqueles ing?nuos Autores, tendo olhado para tais mapas, nos quais, copiados uns dos outros, com os mesmos erros gerais ? notaram que a uma centena de l?guas, ao mar da nossa costa, estavam pintadas oito ilhas, enfileiradas, norte-sul com a ?Madeira?. Como esta ilha estava na posi??o correcta, tais ?ilhas? distavam apenas uma centena de l?guas da costa peninsular. Ent?o aqueles Autores conclu?ram que j? se tratava dos A?ores, descobertos antes de 1400 pelas ?galees? do almirante Pessagna, genov?s ao servi?o de Portugal. E tamb?m alguns "pensaram" que tal descobrimento era ?prouv? par des auteurs contenporains?, ?par des italiens?.
"?Tais conjecturas gratuitas n?o t?m a m?nima possibilidade n?utica, porquanto antes do ?Infante? n?o havia no Atl?ntico navios capazes de ir ao mar alto, como l? foram as Caravelas e n?o as Gal?s. N?o se teria confiado nos portulanos artificiais de 1300 ? que n?o permitiam nem ida nem regresso. S? come??mos a ir aos A?ores mais orientais pouco antes de 1430."
(Citado por Viriato Campos em "Sobre o Descobrimento e Povoamento dos A?ores".)
Uma das conclus?es poss?veis destas observa?es de Gago Coutinho ? que a cartografia anterior ao s?culo XV, e ao contr?rio do que poderia pensar-se, n?o ? um ind?cio de viagens aos A?ores. A falta absoluta de rigor na representa??o e situa??o geogr?fica das ilhas ?, isso sim, uma prova circunstancial de que aqui nunca ningu?m ter? chegado antes dos Portugueses.
Os habituais "suspeitos" s?o fen?cios e v?quingues, mas tamb?m aos eg?pcios se tem concedido a honra da descoberta destas ilhas. No caso destes, com hist?rias t?o absurdas como a de considerar a Terceira o Ovo C?smico, onde teriam nascido os fara?s! Mas, muitas vezes, estas fantasias v?o-se transformando at? adquirirem um certo grau de plausibilidade, acabando por ser entendidas como se de Hist?ria se tratasse. E quem acredita que os fen?cios andaram por c? desista da esperan?a de vir a achar vest?gios da sua passagem. Como eram sobretudo mercadores, tinham o cuidado de n?o deixar sinais que denunciassem as terras que visitavam e os rumos que seguiam para l? chegar, o que era uma maneira de evitar a concorr?ncia. Um hipot?tico achado arqueol?gico fen?cio n?o seria mais, provavelmente, que alguma ?ncora perdida ? de pedra, tratando-se de ?pocas muito recuadas, e de madeira e ferro para as menos remotas.
Nenhum destes povos tinha conhecimentos nem recursos n?uticos que permitissem viajar sem terra ? vista. Qualquer per?odo de c?u nublado os faria perder o rumo. Os eg?pcios nem sequer navegavam de noite, recolhendo-se a terra todos os dias ao entardecer. E, para evitar as dificuldades do c?u nublado, os chineses valiam-se de uns cristais que adquiriam um brilho especial no ponto de incid?ncia dos raios solares, indicando assim a posi??o do Sol.
Sem qualquer ind?cio minimamente seguro de que aqui andou gente antes dos navegadores portugueses, quem acredita nessa que teria sido uma espantosa aventura n?o disp?e de argumentos v?lidos? mas quem n?o cr? em tais odisseias tampouco pode apresentar provas, porque n?o ? demonstr?vel que o n?o acontecido n?o aconteceu.


 

Segunda-Feira, dia 26 de Março de 2012  

 

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