A recente polémica em torno de um relatório do Tribunal de Contas, relativo aos gastos do governo regional em 2010, mormente às expensas dos gabinetes da presidência, vice-presidência e suas extensões, bem como as ajudas de custo "caseiras" do secretário da agricultura, apenas veio confirmar uma data de contas e benesses que os açorianos conheciam, e com as quais se habituaram já a conviver. Nenhuma dessas coisas me espantou, até porque – à voz baixa ou nas páginas dos jornais… - quase todas elas se sabiam. E mesmo porque os factos se reportam a 2010. Vai daí, e sem me estender muito nas opiniões ou indignações, tratei de concluir, de forma ponderada e quase sepulcral, que é uma tempestade num copo de água o que se está a fazer com tais informações. Em primeiro lugar porque não acho nada de mais que uma primeira-dama (que nem o é, porque esse lugar simplesmente não existe…), que até é uma dedicada colaboradora dos eventos sociais e públicos do governo, se desloque ao estrangeiro com a sua plebe, e que dessa viagem dê bom dinheiro a ganhar a um operador turístico e a um senhor que aluga limousines. Até porque, e atente-se no pormenor, se tratava de representar os Açores (ou a família, ou a freguesia, não sei bem…) num jantar de gala em pleno e longínquo Canadá. Depois, não me admira que os membros do governo que se desloquem a Lisboa, ou ao estrangeiro, queiram ficar faustosamente instalados, comendo do que é bom e tendo distrações televisivas para relaxar junto aos lençóis. Afinal, e imagine-se o despropósito, esses senhores apenas podem fazer dessas "tainadas" fora de casa, pois não teria lógica hospedarem-se num hotel da sua ilha de residência, para lá efetuar gastos ao erário público como quem dá um espirro. Aliás, há aqui uma pequena exceção. É que um desses mesmos membros do governo, tendo o seu gabinete numa ilha que não é a da sua residência habitual, tratou de alterar a coisa, afinal quando estava deslocado eram-lhe pagas ajudas de custo pelo incómodo. E assim inverteu o processo, passando a recebê-las quando dorme em casa, e delas abdicando nos poucos dias em que tem de viajar para o seu próprio gabinete. Não é bem a mesma coisa que ficar sempre instalado num hotel, mas a diária respetiva ainda dá para umas voltas. E, surpreendentemente, imagine-se um outro membro desse mesmo governo, que estando em situação semelhante, resolveu não fazer o mesmo. Tem então de sobreviver em casa própria a maior parte do ano, apenas com o que lhe restará do modesto ordenado auferido… Em suma, e sem me imiscuir no mundo dos números e contas, penso que se acusou sem justificação esse conjunto bondoso de dedicados servidores da Região. Atente-se que são apenas minudências de entre o rol de dinheiro que gerem a bem dos açorianos durante o seu dia-a-dia. E que, em 2011, já com a crise a entrar porta dentro das ilhas de bruma – culpa calada da República e da sua austeridade repentina e inconcebível… -, esses mesmos senhores do governo já devem ter passado a andar de táxi sempre que possível, a refutar luxos em nome da hombridade política, a só viajarem em situações de extrema necessidade altruísta, e a verem vídeos nos seus i-phones. Que isto o tempo não anda para graças!
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