Milhafres ? Ser? que aqui n?o h? milhafres?... Esta tese saiu em pelo menos um artigo de jornal e num op?sculo distribu?do por todas as escolas a?orianas. Uma vez mais, a vontade de falar das nossas ilhas foi maior que o cuidado na investiga??o. Dizer que o milhafre n?o habita nos A?ores, mas sim a ?guia-de-asa-redonda, ? o mesmo que afirmar que n?o temos garajaus mas andorinhas-do-mar. O nosso milhafre ? a subesp?cie rothschildii do Buteo buteo, que, al?m de outros nomes, ? tamb?m conhecido por ?guia-de-asa-redonda. Do mesmo modo que o garajau-comum (Sterna hirundo) e o garajau-rosado (Sterna dougallii) s?o andorinhas-do-mar ou gaivinas. Cipri?o de Figueiredo ? Na interessante Feira Quinhentista da Ribeira Grande, Carlos C?sar vestiu-se de Cipri?o de Figueiredo. F?-lo por par?dia, sem d?vida. D. Ant?nio, Prior do Crato, n?o era herdeiro leg?timo da coroa de Portugal. Tal condi??o pertencia a Filipe II, ele mesmo filho de um monarca (Carlos I de Espanha) que, al?m de outros dom?nios, era imperador, com a designa??o de Carlos V, do Sacro Imp?rio Romano-Germ?nico. Nenhum dos filhos de D. Jo?o III sobrevivera ao pai, sendo Filipe II neto de D. Manuel (filho de D. Isabel), e D. Ant?nio filho bastardo do infante D. Lu?s. Havendo herdeiros leg?timos, como era o caso, esta condi??o do nascimento do Prior do Crato era raz?o suficiente para o afastar do direito ? sucess?o. Menos de um s?culo antes muito sofrera D. Jo?o II por n?o conseguir impor o desejo de fazer suceder-lhe D. Jorge, seu filho bastardo, tendo acabado por designar para o trono o primo D. Manuel. A legitimidade de Filipe II fora mesmo confirmada nas cortes de Tomar, de 1581. No entanto, e apesar de ter nascido em Alcochete, Cipri?o de Figueiredo, leal a D. Ant?nio e que fora nomeado por D. Sebasti?o corregedor dos A?ores, viria a ser elevado ? condi??o de her?i a?oriano. Uma famosa frase de uma sua carta a Filipe II foi divisa do batalh?o Independente de Infantaria N.? 17, passando a s?-lo, mais tarde, da Regi?o Aut?noma dos A?ores. N?o importa discutir raz?es patri?ticas nesta quest?o. Gaspar Frutuoso era um claro apoiante de Filipe II, e bem assim a maior parte dos habitantes de S?o Miguel e de Santa Maria e muitos das outras ilhas, incluindo da pr?pria Terceira. ? discut?vel, pois, a liberdade de que falava Cipri?o de Figueiredo, tanto mais que real?a um momento de terr?vel divis?o e antagonismo do povo a?oriano, simbolizada nas declara?es m?tuas de trai??o trocadas entre ele e Ambr?sio de Aguiar, nomeado por Filipe II governador dos A?ores, e que residia em S?o Miguel. Por isso a divisa dos A?ores, tal como o seu bras?o ? maneira medieval, ? um anacronismo. Muito mais apropriado para identifica??o de um povo seria ter recorrido a Vitorino Nem?sio. A sua declara??o de que "A geografia, para n?s, vale tanto como a hist?ria" resume muito melhor a nossa condi??o de ilh?us e o que nos distingue dos demais portugueses. Roteiro Cultural dos A?ores ? O Professor Machado Pires n?o merecia o que fizeram com o seu sonho de um roteiro cultural a?oriano. A apresenta??o pouco atraente nem sequer ? o seu pior defeito. V?rios dos autores escreveram com ligeireza, sem cuidar de rever o que sabiam ou julgavam saber, ou desincumbindo-se da miss?o sem ir al?m de uma vis?o superficial do tema tratado. Nota-se mesmo em alguns um descuido que chega a ser aflitivo. Como por exemplo quando o termo "civis" ? usado em vez de "leigos", ou quando, em lugar de "g?neros", se fala em "poesia e outros estilos liter?rios". Descuido sem d?vida tamb?m ? a inclus?o de S?o Tom? e Pr?ncipe na Macaron?sia. Como o ter? sido a n?o exist?ncia de um ensaio sobre os Franciscanos nos A?ores. Al?m disto, h? interpreta?es hist?ricas erradas, encontrando-se momentos de contradi??o de uns para outros dos autores. Obra sem d?vida a rever cuidadosamente numa eventual 2? edi??o. |