Porque os cheiros nos fazem recuar anos. E porque, neste ano que corre, o ver?o descambou, amuou, e s? agora parece espreitar por entre as nuvens para, decidido e amoroso, tomar conta dos c?us por dias inteiros. Fazendo jus aos tr?s meses que lhe dedicamos com carinho... Por isso, e porque de recorda?es tamb?m se faz a vida, lembro-me de um dia de ver?o. Um dia em que o espelhado das ?guas recebia a luz do sol em bandeja, mas numa forma diferente da bandeja l? de casa que, semanas depois, haveria de ter uvas acabadas de apanhar, cheias de estrelas cadentes avistadas das curraletas por detr?s da cisterna. Ao inv?s, e num outro dia de ver?o, poderia haver mar bravo, a bater inc?modo no calhau preto, longe do bet?o, do cimento e das janelas espelhadas e portas luzidias das mans?es que hoje dominam o caminho para as ondas. At? havia um pequeno sof? de pedra, que nem todos conheciam, e de onde se podia ver a vida a passar. Sem hor?rios, sem esperas, sem rancores e sem a no??o de como se transformariam as coisas nas esta?es seguintes. Passando ao do cora??o ao est?mago das recorda?es, havia socas de milho cozidas, comidas at? ao enjoo. Um enjoo que passou anos at? terminar, dando-lhes de novo lugar como iguaria estival. Mesmo que elas apare?am cada vez menos libertas ? beira da estrada. Por entre bagas de faia e covas de vinha, com alguns arranh?es nas pernas de permeio, ficava a colheita doce, que reservaria a del?cia da amora para o inverno. Num frasco alto, que parecia nunca mais acabar. Nem me lembro dos cagarros, mas eles estavam l?. Lembro-me vagamente das caras, que tamb?m estavam l?. E tenho essencialmente saudades que j? n?o est? em lado algum. Porque, num simples dia de ver?o, podemos saborear pelo pensamento o mel e o fel de que se fazem os postais do passado. Que se resumem agora ?s imagens, aos sil?ncios e aos escald?es descuidados de uma tarde quente que morreu.
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