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O Matador Diplomata

Sexta, 25 de Fevereiro de 2005 em Entrevista 2371 visualizações Partilhar O Matador Diplomata

Pedrito de Portugal na Terceira Pedrito de Portugal está na Terceira. Uma estadia de apenas dois dias para visitar “grandes amigos” que tem na ilha e renovar presencialmente os contactos que mantém com os aficcionados terceirenses e políticos açorianos com o objectivo de contribuir, cá como no continente, para que a sorte de varas volte a ser possível. Um autêntico diplomata da causa taurina que se propõe fazer a ponte de ligação entre políticos do continente e da região, bem como entre as duas aficions, para que se criem as condições necessárias ao “bom toureio”. Para a aficion terceirense só tem palavras elogiosas, pelo entusiasmo e dedicação, que considera exemplares. A “a União” foi encontrá-lo no ambiente paradisíaco do Belo Jardim, na Coudelaria Lima Duarte, Solar da Ribeira, para sabermos quais os planos futuros, quer em termos profissionais, quer quanto à causa que o move e que o leva não só pelos corredores da aficion mas também políticos. O consagrado matador tem sempre o semblante sereno, o discurso ponderado, os gestos contidos. Dir-se-ia que seria tudo menos Matador, no entanto o olhar aceso não desmente que, por detrás da aparência angelical, estamos perante o mesmo vulto que leva ao rubro praças inteiras. a União (aU)- O que o trás desta feita à Terceira? Pedrito de Portugal (PP)- Vim fazer uma visita a grandes amigos que tenho na ilha, nomeadamente aos meus anfitriões João Duarte e Helena Lima, e passar dois dias antes de iniciar o stress da temporada. aU- Vai aproveitar a ocasião para contactar com a aficcion local? PP ( a sorrir) – Claro. A causa da luta pela sorte das varas é permanente, que considero muito importante para a realização de um bom espectáculo no sentido do êxito artístico, com condições para exercer o bom toureio, bonito, elegante, com serenidade, inspiração, com lentidão e tempo. Todos os contactos e ocasiões são importantes. aU- Essa é uma questão que divide opiniões. Há quem considere a sorte de varas um massacre ao toiro, que o coloca em desvantagem... PP- A sorte de varas não quebra a qualidade do toiro, nem a sua agressividade apenas a sua brusquidão. Na verdade aumenta o seu poder de concentração. Não é por acaso que as grandes colhidas acontecem depois da sorte de varas. aU- Como é que um matador vê primordialmente o toiro: como um aliado ou como um adversário? PP- Como um aliado, porque o êxito artístico depende 50% da colaboração do animal, da qualidade do animal. Há uma grande hipocrisia em tudo isto. aU- Provavelmente do ponto de vista do toiro, será diferente... e voltamos de novo à sorte de varas... PP- É preciso termos em conta que estamos a falar de um animal de 500kg. Para percebermos a pertinência da sorte de varas é importante termos conhecimentos de medicina veterinária. A sorte de varas oxigena o sangue libertando-o do excesso de substâncias como a endorfina, a glucose ou a adrenalina. Temos o exemplo que nos vem da antiguidade em que era hábito cortar-se uma orelha a um animal de carga, sujeito a trabalhos árduos, para descongestionar e oxigenar o sangue. Há que ver o assunto de uma perspectiva científica. Além disso não consigo compreender como algumas pessoas consideram inaceitável a sorte de varas e a morte do touro na faena, a quente, enquanto lutam, mas não se chocam que sejam mortos 48 horas depois, no matadouro, sabe-se lá em que condições. Basta lembrar alguns episódios aquando da crise das vacas loucas. Há uma grande hipocrisia em tudo isto. Para além de tudo o mais é bom lembrar que o touro é criado única e exclusivamente para as touradas, para criar arte e beleza. De outro modo nem existiria. aU- Então sendo de um país de tradição taurina e havendo argumentos de base científica, como diz, como explica a actual conjuntura legislativa contrária à sorte de varas? PP- É tudo uma questão de vontade política. Não houve um referendo sobre a matéria, os portugueses não se pronunciaram sobre isso. O Decreto Lei simplesmente foi aprovado na Assembleia da República. Há coisas que não se explicam, acontecem. aU- A conjuntura política foi desfavorável? PP- Pois é como eu disse, há coisas que dificilmente se explicam. Na verdade a conjuntura aparentemente não podia ser melhor: o Presidente da República é um grande aficcionado, afinal foi Sampaio que possibilitou a excepção para a morte de toiros em Barrancos, bem como são aficcionados os até recentemente Presidente da Assembleia da República, Mota Amaral e o Primeiro-Ministro Santana Lopes. aU- Não terá sido a proibição da sorte de varas a factura política a pagar pela excepção de Barrancos, para contrariar uma conjuntura internacional contra as touradas? PP- Provavelmente terá razão. Para dizer a verdade eu fui apanhado de surpresa por este Decreto. Fui confrontado com a lei de proibição da sorte de varas em plena Assembleia da República. Do que se tratava, pensava eu, era de algo completamente diverso: a excepção, devido à tradição, dos toiros de morte em Barrancos. aU- Considera então que esse Decreto de Lei representa um retrocesso? PP- É claramente um retrocesso, esta era uma questão que sempre tinha estado omissa na Lei. Devia competir às autoridades locais o poder decisivo. As proibições só fazem sentido quando alguma coisa está mal. Ora quando Santana Lopes, ainda como Secretário de Estado da Cultura, autorizou os picadores as corridas no Campo Pequeno foram um êxito, não apenas artístico mas também económico, com claras vantagens para a hotelaria, a restauração, o turismo no seu todo, trazendo vida a Lisboa. Não vejo justificação para acabar com alguma coisa que tem êxito comprovado. aU- E isso leva-nos à questão política. Com a derrota de Santana Lopes perdeu um grande aliado à causa da aficcion? PP- Não creio que as coisas sejam vistas com essa maldade. Há aficcionados quer do PSD quer do PS. Quanto a mim sou um independente a nível político, embora só tenha começado a interessar-me pela política por causa da minha amizade com Pedro Santana Lopes. Não tive problemas alguns em dar apoio a um amigo. São coisas diferentes. Entretanto passei a ver com outros olhos o que poderia fazer pela tauromaquia aproveitando contactos e o contributo de amigos. Se tivesse essa perspectiva em 2002 o galo teria cantado de outra forma. A vontade política também se constrói. aU- E agora o que resta fazer? Cruzar os braços? PP- De forma alguma. A vontade política também se constrói. Tentarei pela minha parte, com todo o meu esforço e empenho contribuir para criar uma força mobilizadora para abolir a sorte de varas. Tenho, contudo, a noção de que é algo que não se faz de um dia para o outro. Agora, por ventura, será a situação ideal para que os políticos açorianos do PS aficcionados, e há muitos como os há no PSD, aproveitem a ocasião em que há maioria absoluta do PS quer no continente quer na Região, para sensibilizar os políticos do continente em ordem a conceder-lhes o desejo da sorte de varas. aU- A primeira tentativa legislativa emanada da Assembleia Legislativa Regional acabou no Tribunal Constitucional... PP-Mas agora estão criadas as condições para entrar com um processo paralelamente nos dois Hemiciclos. Voltar a autorizar a sorte de varas e descentralizar o poder decisório sobre a matéria para as autoridades locais e regionais seria o ideal. A sorte de varas contribuiria para o desenvolvimento cultural e económico da Terceira e penso que os políticos estão sensibilizados para isso. Por mim estou disponível para estabelecer pontes de diálogo. aU- Temos então, além do diplomata cultural internacional, o diplomata nacional para a causa taurina? PP (a sorrir)- Graças a Deus levo o nome de Portugal, em termos artísticos, a Espanha, França e América Latina. Se puder ser um diplomata nacional, como diz, para a causa taurina, tanto melhor, os aficcionados merecem e neste caso não se trata apenas da questão profissional mas de lutar pelo que acredito. Só tenho a dizer bem da aficcion terceirense aU- Como tem visto a actuação da aficcion terceirense, nesse sentido? PP- Só tenho a dizer bem da aficcion terceirense, o mesmo digo em relação aos políticos açorianos. Se a aficcion do continente fosse tão motivada, activa e esforçada provavelmente as coisas seriam diferentes. É por isso que acredito que, mais tarde ou mais cedo, essa dedicação trará frutos. aU- Durante alguns anos optou por não actuar em Portugal como forma de protesto. Sente-se incompreendido no seu próprio país? PP- Sinto-me inconstitucionalmente prejudicado. Tenho carteira profissional de Matador concedida pelo Governo, profissão catalogada pelo Ministério da Cultura, estou inscrito na Direcção Geral de Espectáculos como Matador de Toiros e registado nas Finanças como tal, ou seja sou até tributado pelo que faço mas, ao mesmo tempo, não me deixam exercer a minha profissão! Além disso a verdadeira democracia, tal como disse o Presidente Jorge Sampaio, é a que respeita inclusivamente as minorias. Quanto à estratégia de não actuar em Portugal, o que me levou três anos, compreendi que por ser isolada tinha pouco efeito. Só estava a prejudicar a aficcion e a minha carreira. Há outras formas de lutarmos pelo aquilo que acreditamos. aU- Para finalizar quais os seus projectos mais próximos e para quando nova actuação aqui na Terceira? PP- Vou iniciar agora treinos intensivos, físicos e práticos. A actuação mais próxima Está calendarizada para 20 de Março em Alendralejo, Espanha. Quanto à Terceira se houver oportunidade e estiverem reunidas as condições não recusaria um convite para aqui actuar novamente.

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